quinta-feira, 25 de junho de 2015

Nico Fagundes - 1934/2015 - Canto Alegretense

Minha singela homenagem a esse ícone do tradicionalismo gaúcho.  Quem de nós nunca ouviu: 'Bom dia aos gaúchos e gaúchas de todas as querências!!'

Fique em paz em outros pagos, tio Nico!!


Não me perguntes onde fica o alegrete
Segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
E ouvirás toque de gaita e de violão
Pra quem chega de rosário ao fim da tarde
Ou quem vem de uruguaiana de manhã
Tem o sol como uma brasa que ainda arde
Mergulhado no rio Ibirapuitã


Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí


E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer
E nos olhos vou levar o encantamento
Desta terra que eu amei com devoção
Cada verso que eu componho é um pagamento
De uma dívida de amor e gratidão


Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí

terça-feira, 23 de junho de 2015

All Star - Nando Reis

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as índias, mas a terra avistou em você
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário


Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje


Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu
Seu All Star azul combina com o meu preto de cano alto
Se o homem já pisou na lua, como eu ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas
Para a tua voz parece exato


Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem ficou pra
Laranjeiras


Satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem, ficou pra hoje

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Razão e coração

Minha razão e meu coração funcionam no mesmo ritmo. Isso quer dizer que os perdi? Quer dizer que perdi ao menos um deles?

Só porque eu tenho certeza que seríamos felizes juntos, acordar um ao lado do outro, passar os dias pensando os pensamentos teus, te esperar chegar em casa e perguntar como foi teu dia...

Brigar para saber qual lado da cama tu queres dormir e acabarmos dormindo um em cima do outro; discutir qual filme assitiremos e não assistirmos Lagoa Azul; qual música você prefere? eu, escutaria apenas o som da tua voz.

E quando tu não estiveres? Eu levarei comigo teu sorriso, teu cheiro e teu calor. Esperando para te ver rir novamente das bobagens que falo. E tu responde-me com outra e rimos por dias inteiros.

E talvez um dia não me queiras mais. Eu ficarei; eu estarei.

Não foi, mas seria. Nunca será, em mim é.

E se perdi a razão ou meu coração prefiro não ter a primeira, pois levo-te no segundo, dentro de mim, por onde quer que eu vá.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Só por hoje

hoje acordei
     e continuei sonhando
respirei a manhã
     e faltou-me o ar
olhei para tudo
     e não via nada
alimentei meu corpo
     e não saciei minha fome
caminhei pelas ruas
     e não me movimentei
corri pelas estradas
     e não cheguei a lugar algum
gritei para o infinito
     e minha voz não saiu
escutei todos falando
     e não ouvia ninguém
joguei-me ao chão
     e não senti dor
cortei-me a pele
     e não sangrei
sobrevivi por mais um dia
     e não matei-te em mim

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Eu, Bona, Cassi

Um bom lugar


Eu fujo do mundo todas as tardes.

Fujo e mesmo assim é tão fácil de me encontrar. Por três, oito ou quinze minutos recolho-me em mim. Não existe nada lá fora nem aqui dentro.

Sou o que quero ser.

Sou céu, sou mata, sou rio. Sou azul, sou verde, vermelho, cinza. Sou - assim como humano - peixe: indo e vindo sem direção. Sou barco lento deslizante na calma água que sempre é. Sou pássaro, sou livre e vôo.

São horas em minutos. É tempo que não se perde, nem perco-me no tempo. Basta estar. Estou. Lembro o passado, planejo o futuro, vivo o presente. Ou nem isso.

Permaneço.

Perfeito lugar para chegar e para longe viajar.

Tenho ao meu lado um lugar vazio, mas nunca sozinho estou. Converso, rio, choro, discuto. Por três, oito ou quinze minutos.

Depois retorno ao mundo.
O mundo dos outros.
Um lugar, talvez, ao qual não pertenço e que certamente não pertence a mim.
  

As sem-razões do amor - Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Em branco

Escrever ou não escrever nesta manhã?

Até estou com umas idéias, umas frases soltas, perdidas. Juntando-as são os mesmos textos de sempre.

Deixarei passar em branco.

Entretanto saiba: assim como meus textos são os mesmos, não mudam meus sentimentos.

Tudo permanece como sempre foi.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Brilho de gente que faz brilhar - Dado Villa Lobos

Eu não sei mais se você
Tenta ou se já desistiu
Não se esforce se não vê
Que algo ainda resistiu

Porque eu sempre vou em frente
Mesmo sem você atrás
Temos sempre um recomeço
E amanhã não lembre mais

Você me fez recomeçar
Brilho de gente que faz brilhar

Eu me entrego por um dia
Por um dia é sempre mais
Eu me livro da minha culpa
Culpa de querer mais

Num começo o que é fresco
Para mim e pra você
Essa vida se renova
E brilha por você

Conto sobre cavalos

Semana passada relendo um dos melhores livros que já tive em mãos - Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira - de um dos melhores, senão o melhor autor do século passado - J. D. Salinger (autor do não menos que perfeito 'O apanhador no campo de centeio') - li este pequeno conto sobre um especialista em cavalos. Gostei tanto do conto que transcrevo aqui:


O duque Mu da China disse a Po Lo: "Você está bem entrado em anos. Haverá alguém em sua família capaz de substituí-lo na tarefa de procurar cavalos para mim?"

Po Lo respondeu: "Um bom cavalo pode ser selecionado por sua aparência e constituição física. Mas o cavalo fora de série o que não levanta poeira nem deixa rastro é algo evanescente e fugidio, tão intangível quanto o ar rarefeito. Os talentos de meus filhos situam-se em plano definitivamente inferior: reconhecem um bom cavalo quando o vêem, mas são incapazes de identificar um cavalo excepcional. No entanto, tenho um amigo chamado Chiu-Fang Kao, um vendedor de lenha e de legumes, que não fica nada a me dever em matéria de cavalos. Por favor, fale com ele."


O duque Mu assim fez, enviando-o logo depois em busca de um cavalo.

Passados três meses, ele voltou anunciando que o encontrara.
"Está agora em Sach'iu", acrescentou.


"Que tipo de cavalo é ele?", perguntou o duque.

"Ah, é uma égua baia", foi a resposta.

Porém, quando alguém foi buscar o animal, verificou-se que era um garanhão negro como carvão!

Muito contrariado, o duque mandou chamar Po Lo. "Esse seu amigo", disse ele, "que contratei para encontrar um cavalo, meteu os pés pelas mãos. Ora bolas, não sabe nem distinguir a cor ou o sexo de um animal! O que é que ele pode entender de cavalos?"
 
Po Lo soltou um suspiro de satisfação. "Será mesmo que ele chegou a tal ponto?", perguntou em tom excitado. "Ah, então ele é dez mil vezes melhor do que eu. Não há comparação entre nós. O que o Kao tem em mira são os elementos espirituais. Certificando-se do essencial, esquece os detalhes comezinhos; concentrando- se nas qualidades internas, perde de vista os sinais exteriores. Ele vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver. Kao é tão sábio como avaliador de cavalos que deveria julgar algo melhor do que simples animais."


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Segunda

Esse azul da cor do Mar

Não mais em sonho

Foi novamente em sonho que apareceste. Sei que foi num sonho pois apenas nele que te vejo daquele jeito. Sentada ao meu lado, proferindo palavras doces, palavras amorosas, palavras de amor. Debruçada sobre meu corpo pedia-me para beijá-la. Num ímpeto inexplicável, te neguei. Neguei porque sabia que era impossível. Não sabia que sonhava mas só poderia ser um sonho. Tu rias então. Te divertias as minhas custas. Não entendi. Sufoquei. Agonizava e, em disparada, corri mais que pude. Tentei o máximo que pude estar longe de ti.  Acordei. E apesar do frio que fazia, meu corpo estava quente; faltou-me o ar nos pulmões; tremia dos pés à cabeça; olhei para todos os cantos do meu quarto. Nada. Era sonho mesmo. Deitei-me novamente e, pela primeira vez em muitos e muitos anos, roguei aos céus para que entendesse e não pedisse-me para beijá-la mais uma vez. Não em sonho.

Tudo que escrevo é falso

Tudo que escrevo soa muito falso.

Sim, falso. Mentiroso.

E tudo isso porque não é uma verdade completa. Todas as vezes me enrolo no que descrever. Se escrevo sobre uma paisagem, nunca ele é do jeito que meus olhos veem. Se escrevo sobre o que sinto não sai nem um décimo do que realmente é. Se tento escrever sobre você, moça, nem todas as palavras que conheço são suficientes para revelar o efeito de tua beleza na minha cabeça.

Por tudo isso digo-lhes: não acreditem em mim.

Sou um mentiroso.

E tudo que escrevo aqui soa muito falso. 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Conflito

Os eternos conflitos:

O bem e o mal. 

O bom e o ruim.

O quê você quer e o quê você precisa. 

O quê você é e o quê você finge ser. 

O quê te fortalece e o quê te mata. 

O quê te faz rir e o quê te faz chorar. 

O quê te faz dizer e o quê te faz calar. 

O quê te faz viver e o quê pode te matar. 

Sereníssima- Legião Urbana

Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E cê vai logo ver o que acontece
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade
Tudo está perdido, mas existem possibilidades
Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de ideia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia

Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho mas
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar

Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada
Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo

Bendita és tua existência

E nos últimos dias tentei por demais não pensar em ti. 

Mas só lembrava. 

E por lembrar, pensava. E arrumei motivos e razões e juntei tudo que pude pra te esquecer. 

Então hoje tive a reação: acordei mais apaixonado por ti do que em qualquer dia desses últimos anos. E sei, perfeitamente, que tudo continuará como é e como deve ser. 

Sinto um aperto no peito e no entanto sinto uma felicidade que nunca antes senti.

Bendita existência tua que me faz sonhar; maldito coração que não me deixa esquecer. 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Estória

Lembro bem de como nos conhecemos: eu estava muito fraco, desiludido, andava cabisbaixo e sem rumo. Foi nesse momento que senti seu abraço.

Ela me alentou, me acalentou e disse que tudo ficaria bem. De início não acreditei; e resiti às investidas. Mas pouco a pouco nos tornamos grandes amigos. Eu olhava para o lado e ela estava ali; nas noites frias era ela que aquecia meu corpo e minha alma; quando sentia-me sozinho ela fazia companhia; nos momentos de desespero era seu conforto que eu buscava.

Entretanto não era liberdade.

Ficamos juntos por um longo tempo.

Dias atrás andávamos lado a lado, de mãos dadas. Ela fingia sorrir, eu fingia acreditar. Vagarosamente fui soltando sua mão, ela foi ficando pra trás. Numa última olhada vi ela sorrindo, agora com toda sinceridade possível.

Costumo vê-la ainda, nas proximidades de onde a deixei, certamente está feliz por mim e por ela. Talvez um dia - cedo ou tarde - novamente juntemos nossas mãos.

Ah!! e que distração a minha, esqueci de nos apresentar: sou Amor, ela Esperança.

Sobre o coração

Ela não é a Mônica e eu não sou o Eduardo da música, mas quem irá dizer que existe razão?

'E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia, como tinha de ser'

'E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?'

Trechos de Eduardo e Mônica, da Legião Urbana. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Marcelino Ramos - 08/06/2015 - 8:30, 10:30, 13:30, 16:00 e 17:30

houve um tempo

houve um tempo
em que ouvia tua voz
doce, calma, serena
e não precisava do som ao redor

nesse mesmo tempo
nem a névoa da manhã
nem a escuridão da noite
privavam-me teu rosto

lá fora chovia,
ventava, esfriava
assim mesmo, dentro de mim
era sempre domingo de sol

então tu te ias
e voltavas e morrias em mim
como imortal, vivias
a cada noite, em sonhos meus

foi nesta manhã que a vi
em miragem ao nascer o sol
teu riso solto, uma lágrima no olho
e no coração uma palavra de adeus

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Secos & Molhados - Primavera nos dentes

Esta letra - baita poema - consegue demonstrar muita coisas do que somos e do que devemos ser.

Curte aí:

Quem tem consciência pra se ter coragem
 Quem tem a força de saber que existe
 E no centro da própria engrenagem
 Inventa contra a mola que resiste


Quem não vacila mesmo derrotado
 Quem já perdido nunca desespera
 E envolto em tempestade, decepado
 Entre os dentes segura a primavera

domingo, 31 de maio de 2015

De volta ao começo

Então depois de 5, 6 anos escrevendo aqui no blog retorno ao que era antes.

De início ninguém acompanhava, escrevia para mim, com total liberdade e sobre qualquer coisa que quisesse.

Depois começaram os compartilhamentos no facebook e afins. Instaurei-me uma auto-pressão. escrevi textos relativamente bons, outros nem tanto. Mas ao final apenas o que conseguia escrever era direcionado. Tornou-se um muro onde pendurava cartas que nunca enviaria. Um diário que relatava os angustiantes dias que passava. E nada mais era natural.

Então decidi-me largar as redes sociais. Decidi-me que precisava de um tempo pra mim e para meus textos.

Continuarei escrevendo aqui. Pra mim.

Só pra mim.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Maybe

A noite que não dormi

Esta noite não consegui sonhar com você. Nem consegui ao menos sonhar. Pois não consegui dormir. O quê me fez rolar na cama por uma noite inteira já lhe conto. É que já faz um tempo que penso em você todas as horas do meu dia. Tudo que faço, faço pensando em você: no que você me diria, o que você acharia, se concordaria ou discordaria de mim. E faz, de verdade, muito tempo que estou assim. Você também, invariavelmente, aparece nos meus sonhos e é bom. Te vejo e crio cenas que ficam apenas na minha cabeça. No entanto nesta noite que passou eu não consegui dormir. Fiquei pensando nos beijos que deste em outras pessoas. Não tive ciúmes - este sentimento não é um privilégio meu - o que senti foi inveja. Assim como invejei a noite silenciosa que te abraça ao dormir; invejei da mesma forma com que fiquei bravo com o anjo que lhe guarda durante seus sonhos; senti o mesmo da brisa que beija-lhe o rosto ao acordar. E assim foi a noite que passei. Nesta manhã apareceu o sol e nem ele tirou de mim a sua imagem. Desejo apenas que ela fique até o final desta próxima noite.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A ganhadora do sorteio 'Clube da Luta'



Conforme prometido, realizado e -agora - entregue está aí a ganhadora do livro que sorteei no blog. 

Apesar de ter sido um sorteio imparcial e idôneo, fiquei muito feliz por essa guria ser a ganhadora. Ela sempre tem uma palavra sobre as postagens; uma crítica, uma dica, uma risada... E, por isso tudo, ela foi merecedora. 

Parabéns, Kely!!!!

Espero que goste do livro, continue acompanhando, sendo essa fiel seguidora (hahahahahaha) e baita amiga de fé. 

E aguardem as próximas postagens e, quiçá, o próximo sorteio. 

O louco - Gibran Khalil Gibran


 
   Perguntais-me como me tornei um louco. Aconteceu assim:
 
   Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas - as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas - e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando: "Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"
 
   Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. 
 
   E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: "É um louco!"  Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua. 
 
   Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: "Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!"
 
   Assim me tornei louco. 
 
   E encontrei tanto a liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós. 

domingo, 24 de maio de 2015

Como chuva


de início um calor
um abafamento
o corpo, assim como o céu
fica estranho

o sol se esconde
outro tempo se faz

venta muito
árvores, folhas,
flores, cabelos
tudo se move
menos os minutos

tu chegas
vagarosamente
dominando tudo o que vejo

como num banho
purificas o ar
lava as ruas
e meu espírito

permanece por uma noite inteira
com sua música
seus tons, seus sons
quando voz: canta

então amanhece

e assim como chuva
parte tua fica
na minha rua,
na minha janela,
nas minhas roupas
e dentro de mim

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Daniel na cova dos leões - Legião Urbana


Aquele gosto amargo do teu corpo
 Ficou na minha boca por mais tempo.
 De amargo, então salgado ficou doce,
 Assim que o teu cheiro forte e lento
 Fez casa nos meus braços e ainda leve,
 Forte, cego e tenso, fez saber
 Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
 E desafio o instinto dissonante.
 A insegurança não me ataca quando erro
 E o teu momento passa a ser o meu instante.
 E o teu medo de ter medo de ter medo
 Não faz da minha força confusão.
 Teu corpo é meu espelho e em ti navego
 E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
 A motor e insistir em usar os remos,
 É o mal que a água faz quando se afoga
 E o salva-vidas não está lá porque não vemos.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Troca

E ao longo da vida a gente percebe que tudo são trocas. Aquele tênis surrado e confortável é trocado por um novo, que se tornará o melhor já usado. O carro que para tantos lugares e viagens te levou, dá lugar para um modelo melhor, com vidros elétricos e câmbio automático. Aquela camiseta preta que você usou num show de rock, vira uma camisa listrada cheia de botões. Até a banda de rock você, às vezes, acaba substituindo. Sabe aquele livro favorito? Outro virá; mais clássico ou mais moderno, não importa. Essas são suas paixões. E, assim como elas, seus sentimentos também mudam. Aquela pessoa que te tirou o sono, que te fez sonhar, que te faria correr o mundo; uma hora deixa de ser. Aí aparece outra e você sente o mesmo. Não é o mesmo erro, nem mesma história, nem nada. É apenas você sendo o mesmo. E isso ninguém que pode trocar em você. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Silêncio

Fazia silêncio na minha rua. Era noite alta, um vento gélido batia contra a janela. Pelo vidro eu via as folhas sendo levadas aleatoriamente pela rua. Nem um sinal de vida. Diferente do que acontecia dentro de mim. Mesmo parado, a minha cabeça fora transformada pelo turbilhão de informações e imagens. Lembranças, saudades, momentos, desejos... Minha alma inquieta não refletia a quietude da noite, pelo contrário. Meu olho, mal refletido na janela, não era um espelho do que eu era. Ele brilhava e agonizava; ria e chorava; desistia e continuava. Tanto fiquei que nem me dei conta do tempo que passava. Quando vi estava prestes a amanhecer. E foi no momento de maior escuridão da madrugada que percebi, ao fundo do reflexo, teu olho no meu, com as mesmas aflições que atormentavam a minha existência.

domingo, 17 de maio de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Voltando a ser criança

E quando a gente se apaixona no colégio? Sim, aquelas paixões de criança, inocente, sem maldade. Um gostar por gostar. Nem sabemos direito o que é. Vemos alguém no primeiro dia de aula do primário - aquela menina com xuquinhas no cabelo; o menino que não para de falar durante a aula - e nasce algo novo dentro do peito. Aquela vontade de estar junto. Chamar a atenção de qualquer maneira. Vocês então dividem o lanche, trocam desenhos um com o outro, trocam empurrões e abraços, seguram firmes nas mãos na hora de fazer fila. São momentos únicos. E chega também aquela hora que você fica todo errado, querendo dizer o que sente e não consegue falar. Chega até a se afastar para ser notado ou para que tudo isso passe - e não passa. Talvez você levará para o resto da vida aquele sentimento inexplicável e também levará dentro de si aquela pessoa que fez você sentir pela primeira vez seu coração bater mais forte. Então seguimos nossa vida achando que sentimento igual nunca aparecerá. Nos desviamos do que realmente interessa e nossos valores tornam-se outros. No entanto - por incrível que pareça - algumas pessoas podem resgatar esses sentimentos a muito adormecidos dentro do nosso ser. São pessoas que fazem o mundo transformar-se ao nosso redor. Tal qual a primeira vez, isso nos deixa meio bobos, meio crianças, inseguros. Não somos mais donos de nós mesmos. Volta aquela vontade de apenas estar perto, de querer chamar a atenção para ser notado. Convida para um chopp no centro, um cinema. Trocam presentes, mensagens e discutem por coisas banais; ficam dias sem falar um com o outro. Você também sente um receio de falar com a pessoa, de estar sozinho com ela, medo de falar algo errado, medo até de que algo bom aconteça. Por quantas vezes a gente arrisca? E nessas horas nem um passo à frente. Esse sentimento nem chega a ser ingênuo, ele apenas é inocente. Muitas vezes platônico, em outras nem revelado. Por um tempo voltamos a ser criança, esperando ser notado ou para que tudo isso passe - e não passa.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Do amoroso esquecimento - Mário Quintana

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Mário Quintana in Espelho Mágico

 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Através do vidro

Serenamente adormeci, noite passada. Previa um sono tranquilo, sem interrupções. Não pude. Acordei agoniado. A escuridão me incomodando. Algo em mim não fazia sentido. Apesar do frio, não o sentia, mesmo assim tremi, tremi como nunca. Fiz menção de alcançar o telefone, te ligar talvez. Não, não a incomodaria alta hora dessa noite. Escrevi-te algumas mensagens, meus olhos entreabertos não as enviariam. Virei-me na cama, de um lado para outro e permaneci obrigando meu sono a retornar. Creio ter apagado por alguns segundos - talvez minutos ou horas - pois acordei novamente, sobressaltado, com o rosto e as mãos úmidas. Súbito, levantei-me. Apenas com o brilho da lua atravessando minha janela, vaguei pela casa nervosamente. Não havia pensamento que me acalmasse. Acendi a lâmpada do quarto e a luz se fez. Através do vidro tu me olhavas, e sorrias! No papel, deixei palavras - estas mesmas que hoje me faltam. E então, no fundo do teu olhar, contemplei a calma que precisava para esperar o amanhecer.

Quando as estórias acabam

"Eu nunca sei quando as estórias acabam.

Por isso sempre fico preso entre uma e outra, ou entre nenhuma e nenhuma outra; entre um recomeço sem fim e um fim sem término. Talvez por ser mais espectador ou coadjuvante, do que protagonista da minha vida, tenho essa enfermidade de não dar conta quando baixa o pano.

As luzes apagam, o público sai, os colegas limpam a maquiagem e eu continuo lá: com a fala na cabeça, o texto decorado, aguardando a deixa, a deixa que nunca vem.

Sempre tive medo das coisas e das pessoas. Um pavor e uma falta de fé. Talvez por isso eu tenha criado minha própria companhia teatral, onde sou diretor; contra-regra; atores e público. Enceno só pra mim uma tragicomédia. A realidade me faz tão mal e me deixa tão fraco que fico, no fundo do palco, muitas vezes, a sussurrar o texto a mim mesmo. Às vezes não ouço, porque sussurro baixo e minha voz é trêmula...

O público não entende a peça, logo, não aplaude. Eu, furioso, demito a todos: ao diretor, ao autores...expulso o público do teatro e ateio fogo a tudo. E ali dentro fico eu, junto às cortinas e aos holofotes, incandescentes; queimando, queimando, queimando..." 


Texto de Alejandro da Costa Carrilles, autor carioca que mora na cidade de Petrópolis

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Elis Regina - Como nossos pais (letra)

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Beleza rara

Uma beleza rara do norte
Ela é a mais bonita do mundo 
Apenas um olhar dela pode destruir uma cidade inteira 
Um segundo olhar pode destruir um país inteiro 
Não existe cidade ou nação que tenha sido mais abençoado 
Que uma beleza como essa 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Não saiba

Tu sabes. Não sabe? De tudo que há em mim. Daquilo que veio para ser efêmero, rápido, passageiro. E ficou. E é. Permaneceu. Também não imagino diferente. Uma reciprocidade? Essa não se espera, ela apenas surge. Nasce. Não nasceu. Mesmo assim estou feliz, realizado. Completo? Nunca estarei. Sempre haverá motivos para mais busca. E gosto do jeito que você não sabe. De te falar o que muitas vezes não quer ouvir. E mesmo assim tu ouves. Que seria isso? Não, não me explique. Apenas continue. Nem te preocupes, nunca deste-me motivação. Essa eu próprio criei. É o que me move. Que circula pelas minha veias. Que faz com que não congele nas frias tardes de inverno. Que não me deixa sozinho nas noites de verão. Terá fim? Que não tenha! Se algo diferente acontecer não serei o mesmo. Meus sonhos não te imaginarão. Minhas palavras não mais sairão. Meus sentimentos nunca mais serão. Portanto fiques um pouco mais. Fiques muito mais. E não saiba. De tudo isso que há em mim.

Poema - Cânticos de Salomão

Eis que noite passada lendo o livro Sobrevivente, de Chuck Palahniuk - mesmo autor de Clube da Luta - deparei-me com uma citação e referência à Bíblia. Já li trechos dela, já busquei algumas histórias e afins por lá. Apesar de ter deixado minha religiosidade de lado há muito tempo, posso garantir que tal livro continua sendo uma ótima ficção com bons textos e autores contidos ao longo da narrativa. Então busquei o texto completo da frase a que o autor referiu e dei de cara com um dos poemas mais fodas que já li.

Transcrevo abaixo; trata-se dos Cânticos de Salomão:


Como és formosa, amada minha, eis que és formosa! os teus olhos são como pombas por detrás do teu véu; o teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.

Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas, que sobem do lavadouro, e das quais cada uma tem gêmeos, e nenhuma delas é desfilhada.

Os teus lábios são como um fio de escarlate, e a tua boca é formosa; as tuas faces são como as metades de uma romã por detrás do teu véu.

O teu pescoço é como a torre de Davi, edificada para sala de armas; no qual pendem mil broquéis, todos escudos de guerreiros valentes.

Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.

Antes que refresque o dia e fujam as sombras, irei ao monte da mirra e ao outeiro do incenso.

Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha.

Vem comigo do Líbano, noiva minha, vem comigo do Líbano. Olha desde o cume de Amana, desde o cume de Senir e de Hermom, desde os covis dos leões, desde os montes dos leopardos.

Enlevaste-me o coração, minha irmã, noiva minha; enlevaste- me o coração com um dos teus olhares, com um dos colares do teu pescoço.

Quão doce é o teu amor, minha irmã, noiva minha! quanto melhor é o teu amor do que o vinho! e o aroma dos teus ungüentos do que o de toda sorte de especiarias!

Os teus lábios destilam o mel, noiva minha; mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.

Jardim fechado é minha irmã, minha noiva, sim, jardim fechado, fonte selada.

Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes; a hena juntamente com nardo, e o açafrão, o cálamo, e o cinamomo, com toda sorte de árvores de incenso; a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias.

És fonte de jardim, poço de águas vivas, correntes que manam do Líbano!

Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no meu jardim, espalha os seus aromas. Entre o meu amado no seu jardim, e coma os seus frutos excelentes!

(Cantares de Salomão 4:1-16)

terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre os erros que cometemos

Costumo cometer muitos erros num só dia.

E não vejo isso como um grande problema.

Lógico que alguns erros são maiores que outros; alguns trazem consequências irreversíveis, outros são em menor escala. Acontece que ao final do dia, quando consigo parar e pesar tudo que transcorreu, procuro fazer um balanço do que aconteceu. Então vejo que os erros que cometi me fazem buscar uma solução; com isso aprendo. Através desses erros procuro algo que me faça não errar mais, que me torne uma pessoa melhor.

A cada acerto - ou vezes que achamos ter acertado - tudo fica como está, nem nos preocupamos em saber que poderia haver outra alternativa.

Uma das coisas mais difíceis na hora de consertar algo é quando erramos com alguma pessoa. Geralmente é difícil nos desculparmos, pode fazer com que nos sintamos inferiores ou algo do tipo. Entretanto esse pode ser o maior símbolo de racionalidade que há num ser humano. Não há humilhação, há apenas humildade.

Eu, particularmente, prefiro esse caminho do que conviver com uma culpa que permanecerá por um tempo interminável.

Por fim, apenas repito: costumo cometer muitos erros, não gosto de errar, mas os erros, ah, os erros, esses nos fazem ir em busca; e essa busca é a melhor parte no caminho de nossas vidas.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Quando escrevo

Não consigo escrever quando estou tranquilo, ou feliz.

Escrevo quando meus pensamentos me atormentam, quando chove lá fora, quando a tempestade se faz forte e intensa, quando a nuvem que me rodeia insiste não passar.

Escrevo quando há um vazio, quando tudo está incompleto, quando falta algo - mesmo uma mísera parte - em mim.

Escrevo quando meu sono é inquieto, quando meus sonhos são sufocantes, quando minhas pernas falseiam, quando tremem minhas mãos.

Escrevo quando os filmes nada me mostram, quando as músicas nada me dizem, quando os poemas não me tocam, quando os livros nada descvrevem.

Escrevo quando na verdade queria falar. Eu escrevo porque tenho algo a dizer. Nem sempre é para alguém. Escrevo pra mim. Assim consigo me ouvir, só assim consigo me ver, é assim que consigo ficar bem: comigo e com o mundo.

Então fico em paz.
Escrevo e fico completo.
E já não preciso mais escrever.
Apenas sentir.
E viver.

Sobre o que aproxima

E a gente utiliza mensagens de celular, whatsapp, messenger, e-mail e qualquer forma de comunicação que exista. Carta? Nós trocamos também. O bom e velho telefone fixo continua sendo de bom uso. Se soubéssemos enviar sinais de fumaça, faríamos; se voltassem os antigos mensageiros, certamente trabalhariam muito para nós. E, tenho certeza, de que a cada novo tipo de comunicação que seja criada nós nos utilizaremos; pois vale tudo para que continuemos próximos, mesmo distantes. No entanto nada substitui, para mim, aquele olho no olho: voz, imagem, cheiro, sorriso e expressões que só eu percebo quando estamos perto um do outro.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

mais do mesmo


escrevi a pouco
um novo poema
não era novo
era igual
a tantos outros
tantos que escrevi
era a mesma paisagem
era o mesmo sentimento
era mais do mesmo sonho
e era você
então soube
que as palavras não bastam
que as palavras não chegam
não são suficientes
para que saibas
para que eu escreva
um novo poema
com essas poucas palavras
que já utilizei

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Caminho

Percebi que devo deixar algumas coisas para trás. Percebi que perdi o caminho a seguir. Devo deixar algumas coisas, algumas pessoas, algumas virtudes - que vícios se tornaram - e reencontrar a paz a muito perdida.

Meu caminho nem sei ao certo qual é. Desviei-me dele tentando seguir algumas pessoas; ora tentando ajudar, ora buscando ajuda. Hoje o que vejo é apenas um esboço do que já tinha trilhado. Não faz mal. Arrancarei as ervas daninhas que estão a minha frente; chutarei pedras pra longe, outras guardarei em meus bolsos para que os ventos que ousarem me levar, dessa vez não me levem.

Será muito difícil; mas todo carinho, afeto e respeito que deixei no caminho dos outros trarei pra mim. Guardarei tudo isso comigo, para que quando eu mais necessitar possa, dentro de mim, buscar o que desejo. Egoísmo? Talvez. Mas, mais do que isso, é amor-próprio. Desses que senti falta mesmo quando muitos me abraçaram. Desses que me foram tirados com palavras doces e ações vazias.

Não tenho mais medo. Tudo que poderia ter errado, errei. O tempo sei também que é muito curto, mas não o desperdiçarei mais. Vou correr contra ele e contra esse tortuoso caminho. Quedas virão e me levantarei. Machucados terei e cicatrizes ficarão, no entanto essas novas e as outras que restaram, vão me mostrar que tudo tem cura e que nunca é tarde demais. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

tal vez talvez última vez

dessa vez será a última vez
não há mais tempo a perder
não há motivo pra insistir
nem forças para lutar
um que tenta
e outro que resiste
ou nem isso
talvez não queira
talvez não saiba
talvez
talvez
tal vez nunca chegou
vez que deixará saudade
dos sonhos tidos
do que se imaginou
do que não aconteceu
mas será apenas mais uma vez
e talvez
será a última vez

terça-feira, 24 de março de 2015

dois que eram dez

eram dois
e na verdade eram dez
os dois eram irmãos
e dois eram pequenos
dois nem tão pequenos assim
dois irmãos do meio
dois um pouco mais velhos
e dois que eram maiores
eu os via dia sim, dia não
era ela quem os trazia
os via chegando
e depois eles paravam
mas nunca quietos estavam
ficavam perto
ora longe
subia um
logo outro ia
nunca soube suas estórias
imaginei as minhas próprias
léguas andaram
fronteiras atravessaram
na neve se resfriaram
areia da praia pisaram
no lago se refrescaram
tantas idas e voltas
e voltas e voltas
na grama
e na minha cabeça
hoje os vi
e foi tudo o que vi
aqueles dez
que na verdade
eram apenas dois

quinta-feira, 19 de março de 2015

onde estou

Gosto de estar onde estou.

Na maioria das vezes.

Nas poucas que não gosto tento driblar a sensação ruim que me rodeia; então, se estou andando por ruas movimentadas, imagino-me na selva: olhando árvores, observando pássaros, evitando perigos.

Se estou caminhando sozinho imagino-me num deserto: a areia ardendo os pés, o sol escaldante, um oásis que surge...

Quando abate-me a tristeza à noite, deito no meu gramado, observo as estrelas penduradas no infinito do céu, vejo a lua solitária assim como eu, um cometa que passa e passa e passa.

Se estou no meu carro, mesmo num passeio curto, construo em mim uma viagem longa, um destino bonito: praia, palmeiras, ondas no mar. No banco vazio desenho-te e sorrio. Quase consigo tocar sua mão e sei que mesmo com tudo que há de mau no mundo nunca sozinho estou.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Saudades - Florbela Espanca

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Crônica de um aniversário de criança

(Imagem meramente ilustrativa)

Sentado em um bar, ontem à noite, lembrei-me das festinhas de aniversário que frequentava quando criança. Isso lá nos anos 80 começo dos 90.

Acho que era diferente dessas festas de criança de hoje em dia, pois muito mudou de lá para cá. Íamos todos os amigos e colegas do aniversariante na casa dele para comemorar o seu dia. Antes do Parabéns prá você nos comportávamo - cada mãe arrumava seu filho da melhor maneira possível - então tínhamos que nos manter impecáveis para a hora do parabéns em volta da mesa e a tradicional foto com todos reunidos.

Naquele tempo não havia essa maravilha - meio duvidosa - que é a câmera digital, o que existia era uma máquina de filme com 12, 24 ou no máximo 36 poses. E era isso mesmo POSES. Não se tirava fotos individuais, tu tinha que estar com algum amigo ou em volta dos enfeites, porque não se poderia apagar as fotos na máquina, ah, não senhor! E eram caras. Por isso, como falei, antes dos parabéns a você ninguém poderia suar ou se sujar correndo e brincando nos pátios, para poder sair bem na foto.

Pois bem, lembrei também da mesa preparada com os doces, salgados e bebidas que ficava em frente a um fundo decorativo - isso deve existir ainda hoje em dia - e tudo ficava em cima da mesa. Repito: tu-do. Tudo mesmo. A mesa ficava forrada de cachorros-quentes, pastéizinhos, brigadeiros (conhecidos outrora por 'negrinhos'), olho-de-sogra, gelatinas nos copinhos e o bolo, lógico. Geralmente quem preparava tudo era a própria mãe do anfitrião, apenas o bolo era comprado na padaria - que hoje chama-se confeitaria. Para beber era servido a incomparável 'laranjinha' e aí que fica a referência do que me levou a pensar nas festinhas ontem à noite.

A laranjinha era um refrigerante que vinha numa garrafinha de, sei lá 150, 180 mls. Ela tinha o mesmo formato e cor das garrafas de cerveja de hoje. Dentro vinha um líquido doce, doce, mas doce, de laranja. Nós, crianças, tomávamos horrores disso aí. Era o que tinha, mas era muito bom. Antes dos parabéns ninguém tomava laranjinha, o perigo de algum de nós derrubar o suco na roupa era gigantesco. Entretanto depois de toda a formalidade atacávamos a mesa e a festa realmente começava.

Corríamos para cima e para baixo na casa, no pátio, na calçada, por todo lugar e, comumente, nos sujávamos muito e... Mas divago, outra hora escrevo mais detalhes disso.

O que quero contar é que o aniversariante geralmente tinha algum primo ou prima desconhecidos do resto dos convidados. Denominávamos eles 'de fora'. "Fulano, quem são aqueles dois guris ali no canto da mesa? Ah, esses são 'de fora'."

Pois bem, certa feita numa festa de uma vizinha havia dois primos da aniversariante. Um guri uns dois anos mais velho que o resto de nós e uma guria que era da mesma idade, talvez um ano mais nova que eu. Eles eram de fora. De uma cidade maior que a nossa, vinham da cidade grande, talvez Cruz Alta, ou Curitibanos, quem sabe do Paraná. E eles não se misturavam com os outros convidados. E a gente também não dava muita abertura, éramos crianças e, como tais, ciumentos com tudo. Foi quando o guri, que era um pouco mais velho que a gente, parou do meu lado, perto da mesa das guloseimas e pediu:

 '- Tiaaaa, quero um REFRI!'

Maldito seja esse pessoal da cidade grande!! Ora, refri. Laranjinha, LARANJINHA, LA-RAN-JI-NHA!!
Simples.
Esse cara tá se achando!

Chamei alguns amigos, contei o que se passou e já planejamos que na primeira oportunidade passaríamos uma 'tranca' nele. Seguiu-se a festa e eu só cuidando o mauricinho de nariz empinado. Fiquei com tanta raiva da superioridade dele que me esqueci de tudo a volta. Estava com um pastel meio mordido em uma das mãos e na outra estava a laranjinha com um canudinho. Ora mordia um ora sorvia um gole doutro, sem tirar os olhos do maldito-seja. Nisto vi um vulto se aproximando e desde o outro lado do pátio veio a guria, caminhando em minha direção.

O cabelo com duas maria-chiquinhas, vestidinho colorido, sandalinha nos pés e meia branca: linda! Travei. Ela parou próximo a mim e largou: '- Oi. Tu me dá um gole do teu refrÍ?' Assim mesmo, com I maiúsculo e acento. Quase desmaiei. Estendi o braço com o refri, ela colocou a mão na minha e sem tirar os olhos do canudinho tomou um gole. Me agradeceu e se foi saltitando pelo pátio.

Dois amigos, que não tinham visto o acontecido, pararam logo em seguida ao meu lado e começaram a falar que 'agora era a hora de derrubar o guri', 'um vai por um  lado e outro pelo outro', 'vamosvamosvamos'. Ainda com um pedaço do pastel na mão, tomei o último gole do REFRI, olhei para o guri - correndo no gramado, olhei para a guria - balançando os pezinhos num pequeno balanço e, suspirando, disse: '- Deixa ele, ele é de fora.'

Então ontem, escorado no balcão do bar vi a moça que atende se aproximando, lembrou-me da guria - não sei se foram os olhos, o sorriso, o jeitinho ou qualquer outra coisa -, ela me perguntou 'O que vai beber?' Sem pestanejar respondi: 'Uma laranjinha'. Ela surpreendeu-se e perguntou se queria um suco de laranja. Eu ri, meio sem jeito e disse que poderia ser um refri.

Realmente muito mudou de lá para cá.
 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Conto sobre palavras

Houve um dia em que perdi meu vocabulário. É sério, não ria. Não sei se foi por ter lido muito pouco nos dias anteriores; não sei se foi falta de atenção; ou puro e simples esquecimento. Não sei. O que sei é que as palavras morreram na minha garganta e travaram nos meus dedos. Comecei a pronunciar apenas frases feitas. Escrevi poemas que já havia declamado. Resenhei uma crônica que já havia sido publicada. Imitei canções já musicadas. Acometeu-me um desespero nunca antes sentido. Achei que havia desaprendido tudo que tinha absorvido durante muitos anos. Senti-me impotente; meus olhos arregalados, a mão tremente, coração acelerado e um pingo de suor demonstravam meu nervosismo. Justo comigo que havia afundado o olhar em livros. Justo comigo que varava noites lendo os grandes da literatura. Por quê aconteceu comigo que sabia tantos poemas, tantas letras de música, tantos diálogos de filmes? Engasgado, faltando-me o ar, abri a porta de casa e disparei sem rumo pela cidade. Olhava para tudo e para todos, sem controle das pernas e do destino corri até que meu corpo não aguentou mais. Sentei-me, então, em uma praça que não havia visitado antes, exausto com a cabeça apoiada nas mãos permaneci. Longo tempo fiquei. Uma mão então tocou meu ombro e, assustado, olhei para o lado. Uma senhora, de olhar doce perguntava o que havia acontecido comigo. Tentei explicar calmamente, no entanto eu não entendia o que estava falando. Decidi apenas ouvir. E me acalmei. Com o mesmo olhar que ela me acolheu no primeiro momento foi com o que se despediu minutos depois. De onde estava levantei-me e continuei caminhando por muitas ruas estranhas ao meu olhar. Um florista arrumando vasos de rosas em uma calçada parou-me com um simples gesto; sem mesmo eu perguntar ele começou a me falar de como preparava a terra, as mudas, o cultivo, o preparo, a colheita e todas as fases de preparo de um lindo buquê. Ao deixá-lo, o senhor entregou-me um botão de rosa e um sorriso, os dois levei comigo descendo a ladeira que me levava a um lugar qualquer. À soleira de uma porta havia uma moça com um livro em suas mãos. O livro era gasto, as páginas voariam se ela não as mantivesse em constante segurança, entretanto o livro era novo pra mim. Com um mero movimento de cabeça a moça convidou-me a sentar ao lado dela; então, um brilho diferente nos olhos apareceu e ela começou a contar passagens do livro. Compenetrada, pareceu-me que ela própria era protagonista da história. Por horas permaneci ouvindo aquela leve narrativa a qual me fez viajar junto dela. Em momento algum pronunciei qualquer palavra. Nem mesmo quando uma trupe de teatro mambembe parou junto à calçada. Malabaristas, palhaços e acrobatas acompanhados de um trio de música extravasavam alegria junto às pessoas. Sentados ficamos olhando aquela das mais antigas formas de entretenimento. Quando eles se foram e eu levantei-me da escadinha, a moça estendeu-me o livro e disse para que ficasse com ele. Tomando o livro em uma das mãos e com a outra entregando o botão de rosa segui caminho para casa, não sem antes visualizar a rosa próxima ao rosto risonho da moça do livro. Sem mesmo lembrar-me do caminho cheguei ao meu quarto. Antes de cair no sono li vários capítulos do livro. Uma linguagem diferente, uma história nem parecida com as que tinha costume de ler e os sonhos vieram. Sonhei com o desespero que havia tido no dia; lembrei-me da senhora e sua voz experiente e doce; encontrei o florista de voz paciente e serena; vi novamente a moça e sua narrativa encantada e bela; me diverti novamente com o teatro e toda alegria e felicidade que me passaram. Quando acordei, meu vocabulário antigo tinha retornado; mas as palavras que passei a usar eram novas. Foi quando percebi realmente que o que precisava era ter ouvido mais o mundo ao meu redor, ter sentido o calor e a bondade do ser humano mas, principalmente, aprendi que deveria ter dado chance a novos livros, histórias e pessoas.        

Simples

Eu poderia escrever sobre a saudade que eu sinto. Ou sobre a falta de você. Quem sabe remoer sentimentos e lembranças. Talvez sobre o tempo que não passa e não ajuda em nada.

Mas não.

Vou falar do tempo que passamos juntos, lembra?

Andamos juntos pelas ruas, rindo das coisas mais banais. Ficamos por horas deitados um ao lado do outro apenas olhando para o teto e falando alguma bobagem. Lembramos de coisas do passado - coisas engraçadas demais; falamos de alguns amores que foram e de outros que nem amores foram.

Gostou do novo filme daquele diretor? E o que foi melhor: os primeiros discos ou esses últimos que a banda lançou? Tem lido algo ultimamente?

Pequenas coisas, simples cotidiano. E me alegraram. E ainda me alegram só de pensar.

Falemos de futuro? Não há necessidade. Os caminhos estão traçados. Em algum momento tua rua fará esquina com a minha. E será do mesmo jeito: sem problemas, sem preocupações. Apenas vivendo juntos o minuto seguinte novamente.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Não me peça

disseste-me
e por todo meu rosto
te entendi

olhos, nariz,
ouvidos,
boca

minha mente também
te ouviu
e aceitou

não meu coração.
maldito traidor
pulsa, pulsa

leva sangue quente
traz teu gosto à boca
ouve tua voz

sente teu cheiro
tudo te lembra
e te vejo

e te desejo
e suplico-te
não me impeça

não me peça
para não sentir
para não querer

pois te quero
mas não te digo
e tu sabes

e, sabendo,
deixe-me sonhar.
bem lá no fundo: te entendi.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Não: não digas nada - Secos & Molhados

Poema de Fernando Pessoa musicado pelos Secos & Molhados
Não: não digas nada
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias
És melhor do que tu
Não digas nada, sê
Graça no corpo nu
Que invisível se vê
Não: não digas nada
Não: não digas nada

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Nunca esperei que fosse fácil. 

Mas também nunca desejei que tudo fosse normal. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

These days - Foo Fighters

fuga


Veloz a frente, corrias tu
não via teu rosto
sabia quem tu eras
sempre soube
mesmo não vendo
tu choravas

atrás de ti, corria eu
tentava te segurar
te tomar em meus braços
acalmar-te em mim
mais perto chegava
mais tu corrias

ofegante fui ao chão
sangue, suor e lágrimas
com a terra misturados
pedi que fugiste
que ficaste segura

estavas então ao meu lado
com pesar nos olhos
as lágrimas secaram
viraste e foste
era de mim que fugias

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sobre a semana

Pessoas,

tentei - duas vezes ontem, duas hoje - escrever algo sobre a semana passada e não consegui desenvolver. Foi uma semana cheia de surpresas; algum sentimento antigo, muitas cervejas novas, um sonho realizado, surpresas, revelações. Nem sei se conseguirei escrever sobre tal semana. Não prometo nada. Quem sabe um texto sobre o showzaço da Foo Fighters. Mas nem esse prometo. Não sei se consigo traduzir em palavras a emoção que me acometeu.

Então fico por aqui mesmo.

E aguardem, talvez em breve, quando tudo voltar ao normal.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Pequena parte

Faz muito tempo que não a vejo.
Mesmo assim ela parece-me muito real.
Mais real que você, que lê estas palavras.
Tenho a imagem dela e ainda ouço sua voz.
Lembro do sorriso dela,
Do jeito que ela desviava o olhar,
Aquele tique quando ficava envergonhada,
O jeito que sua mão segurava a minha,
O mover dos seus lábios,
O cheiro que me enlouquecia,
Ela até gritava comigo,
E eu gostava de tudo.
Ainda lembro-me dela,
e ela parece-me muito real.
E você pode me perguntar tudo sobre ela,
Pois eu nunca esqueci.
Mas o que conseguirei lhe contar
será só uma pequena parte
de tudo que ela sempre foi.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Triste dia

Há dias em que pensamos: poderia hoje o mundo acabar, estaria feliz. Eu não gostaria que ele acabasse hoje. Pois teria de última visão apenas as trevas. Dias complicados em que nos batemos nas paredes de um corredor sem fim, sem luz ao final e sem sentido algum. Procuro então agarrar-me a qualquer base sólida que tenho ao alcance. Busco no fundo dos meus ouvidos o som da tua voz. Reviro o fundo da memória atrás de imagens suas, que me façam acalmar a alma. Bagunço gavetas atrás de uma palavra sua que me diga que tudo esta bem. Mesmo assim a angústia não sai de dentro do meu peito. Mesas de bar não trazem a solução. Todos os vinhos do mundo só fazem aumentar o vazio. Entre garrafas espalhadas pelo chão do quarto me sinto um nada. Nada mais que um espectro do que fui. Não acabe agora, triste história. Espere que volte a brilhar o sol nessa tarde cinzenta. Que esteja fresca na memória apenas a lembrança de dias feitos de alegria e de histórias que valham a pena serem lembradas.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Retrospectiva 2014

Se eu fosse fazer uma retrospectiva completa desse ano de 2014 escreveria muito, pois foram muitas coisas ótimas que aconteceram nesse ano. Tirando as decepções com meu Grêmio, nada de ruim foi relevante. Entretanto tenho muitas coisas boas para exaltar e tentarei, nas linhas a seguir, elencar algumas delas.

Neste ano pude ficar muito tempo sozinho. Lendo meus livros, assitindo filmes e pensando sobre tudo e sobre nada. Eu gosto disso. Desses momentos só meus. Por outro lado aproximei-me mais de meus amigos. Verdadeiros amigos. Cresceu a amizade já existente e surgiram mais uma ou duas q ue valeram a pena. Foram muitos churrascos, jantas, bebedeiras nos bares, cervejinhas de boa. E por isso o ano já estaria salvo.

 Passei muito tempo com meu irmão Vicente. E a cada dia que passa eu me ligo mais a ele. Achei que o sentimento que teríamos puidesse ir diminuindo a medida em que ele crescia, o que aconteceu foi o contrário. Acompanhei ele em diversos compromissos dele e ele foi parceiro nos meus. Olho para ele e vejo um pouco de mim. Espero estar ensinando as coisas certas ao guri.

Agora vem a parte que mais mexeu comigo neste ano que termina: o nascimento do Nicolas.

Desde o momento em que meu primo contou-me que aguardava a chegada do seu filho, tomei-me de uma emoção desconhecida. Não sei explicar, de repente pela ligação que tenho com o Saule, desde logo a euforia e sentimento de responsabilidade invadiu meu ser. No dia do nascimento dele a toda hora recebia notícias do que estava acontecendo, recebia as fotos e bobo ficava olhando para aquela linda criança que chegava ao mundo.
Então numa manhã, que teria tudo para ser normal, meu primo me ligou para presenciar o primeiro banho do pequeno; larguei tudo que estava fazendo e fui correndo para onde eles estavam. Lá chegando, só de ver o menino me emocionei e, assim emocionado, fui convidado para ser PADRINHO do bebê. Sumiu o chão debaixo dos meus pés, meus joelhos tremeram, por entre as lágrimas só via o meu afilhado e nada mais. Este dia sim, foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Hoje eu acompanho a vida dele. Preciso vê-lo invariavelmente. Ele cresce. Vejo seu sorriso e me comove inteiro. Tiro fotos, passeio, seguro ele no colo e sei que ele gosta de estar ali. Isso mexe comigo e me faz sentir vivo.

Por isso meu ano foi maravilhoso.
 
Não tenho nada a reclamar.
 
Só a agradecer.
Que o próximo ano seja como esse.
 

Que saiba o que sinto

Dedico essas palavras, no momento em que termina o ano, para você. Sim, você: que sempre lê o que escrevo, que me diz se gostou do texto, se fala que ele ficou meio complicado de se entender ou se ficou curto demais, mas que toda vez tem um palavra para mim. Entretanto não vou falar hoje sobre os textos. Vou escrever-lhe um texto.

Pensei muito em você nestes dias. Imaginei nós dois. Sonhei contigo quatro ou cinco noites a cada semana. Invariavelmente surgia em meus sonhos. Houve momentos em que o dia inteiro estava conectado com você. Através de pensamentos ou de outra forma qualquer.

Houve um tempo, também, em que não suportei mais e abri meus sentimentos; contei-lhe sobre tudo que me apertava o peito; contei-lhe sobre o que me amargurava e sobre o que eu mais desejava. Lógico que nunca poderia ser, mas foram as suas palavras que me fizeram acreditar que não havia motivo para sofrer. Hoje eu sei o que sinto e isso não me atormenta. Sei também o que você sente e isso não faz mudar nada em mim.

Procuro saber como você está. Tento dividir meu dia com você. Formulo em minha cabeça os momentos em que você ri das bobagens que escrevo. E penso. Penso. Penso. Penso.

Já me disseram que perco muito tempo imaginando o que poderia ser. Mas o que significa o tempo quando o que imagino faz o tempo parar? Que significa qualquer coisa quando o riso sai espontaneamente dos meus lábios? Que mal me faz quando desenho você na minha frente, caminhando nas margens do rio, despreocupadamente, de pés descalços e me dizendo que está tudo bem? Talvez deliro. Talvez fujo da realidade por alguns instantes. No entanto que mal há quando o mundo lá fora é perverso e com tão pouco amor? Posso não estar completamente certo. Errado tenho certeza que não estou.

Que neste próximo ano tudo se mantenha como está. Que meus dias e minhas noites sejam como estas que foram. Que a cada dia que eu viver continue aumentando em mim esse sentimento que nutro por você. Que minhas horas sejam felizes como são desde que te conheci. Que o amor que sinto mantenha-se forte para que a ligação e amizade que temos continue forte, por muitos e muitos anos.

Que você saiba, hoje, que amo.
Que você saiba que sempre amei.
Que você saiba que continuarei amando-lhe.  

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Se eu contar..

Os melhores escritores já escreveram sobre isso. Diversos filmes tiveram cenas como essa. Ambos terminam invariavelmente com um final feliz. Não sei que fim terá essa história.

Destino?

Coincidência?

Talvez. Sei que na última noite nem dormi. Sabia que meus melhores sonhos seriam horríveis em comparação a meus pensamentos. Então nesta manhã o mundo sorriu pra mim. E eu sorri de volta pra ele. Não sinto mais peso em meus ombros e meu café nunca foi tão saboroso.

Estou feliz.

Pois sei que não acaba aqui. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

bilhete por debaixo da porta

"descobri que gostava de você há tempos atrás. você tinha o quê, talvez onze, doze anos,, e não era nada carnal, nem feio,  afinal eu tinha pouco menos que você. te vi e soube naquele instante que daquele dia em diante sempre te teria em meus pensamentos. e foi assim. e é assim. nos encontramos. desencontramos. tive alguns namorados. você teve suas aventuras. apresentou-me algumas garotas suas até. tentei. estava aqui e passei despercebida. aguardo o dia em que nossos olhares se cruzem e você perceba tudo o que sinto. talvez você já saiba. que sinta um pouco de medo. ou, quem sabe, sabemos desde o início que estaríamos assim: perto e longe; juntos e separados; amigos fiéis e amantes ocultos. só saiba que em todos os dias que eu viver serei sua garota."  

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Eros D'Aute, Theodore Wratislaw

Nem rosas amarelas ou vermelhas a desabrochar
Tampouco o cheiro do mar
São dignos do adorado perfume
Que a ti se une.

Os lírios de flores brancas,
A água imóvel me entedia,
Sofro por um desejo apaixonado
Por ti e tudo o que é teu.

Há apenas estas coisas no mundo:
Tua boca de fogo,
Teus seios, tuas mãos, teus cachos profundos
E meu desejo, meu rogo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Tormento

Não consigo lembrar-me dos sonhos desta noite. Tanto melhor assim, eu acho. Acordei diversas vezes, mas não fiquei com lembrança alguma. Havia um caminho sem fim, um rio sem mar, um céu sem estrelas, um bosque sem flores... Talvez isso. Talvez nada. Bem provável você ter aparecido; como outras noites atrás. Ao menos não tenho agora sua imagem: real, irreal, tua voz. Mas eu lembro, sim. Hoje, apenas um borrão, desfocada imagem que, quando perfeita, atormenta-me a alma.