sexta-feira, 21 de junho de 2013

Tantas e tantos

Com tantas cartas e "bilhetes" que te escrevi, e não os enviei, conseguiria fazer uma enorme fogueira que, quem sabe, chamaria sua atenção.

Com tantas palavras que tenho para te dizer, e não as pronunciei, falaria por dias inteiros até que minha voz lentamente se esvaíssse.

Com tantos sonhos que tive, e não os realizei, preencheria tantas noites de sono quanto fosse possível imaginar.

Com tantos abraços, tentados e não dados, abraçaria o mundo de uma só vez.

Com tantos beijos imaginados sofrerei, por não dá-los mais uma vez.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

De números e beijos

Era noite alta. O vento e o frio davam de encontro a janela e só faziam aumentar a sensação de infelicidade. No rádio, os Cascavelletes cantavam Lobo da estepe e a solidão aumentava.

Então ela abriu a porta, cruzou o corredor e adentrou meu quarto.

Sua visão fez meus olhos brilharem. Aproximando-se lentamente deitou ao meu lado e fitou-me intensamente. Via que os seus olhos estavam marejados, que era um olhar de despedida; mas que era um olhar sincero.

Durante longo tempo permanecemos falando tudo que havia entre nós, entretanto nem uma palavra fora pronunciada. Eu queria ter algo a dizer. Quando tentei, dois dedos tocaram-me os lábios silenciando-me novamente. De sua boca ouvi:

- Fale-me de números.

Não entendi. O que ela queria dizer com números? Ora números! Esboçando uma tentativa de falar fui interrompido:

- Conte-me os números.

Sorrindo aquele riso seu, aquele riso que só ela tem, riso inocente, riso confortador, riso meu; iniciei:

- Um..

Nossos lábios lentamente se tocaram. Um beijo único, tal e qual o primeiro. Junto dele vieram as imagens, lembranças do passado, o sentimento que eu carregava dentro de mim e uma torrente de emoções.

- Dois..

Um beijo que incendiou. Beijo que deu vida própria a nossas mãos, braços, pernas e corpo. Longo beijo.

- Três..

- Quatro..

- Cinco..

- Seis..

Beijos de paixão. Beijos de amor. Beijos de saudades. Beijos com vontade.

Nesse lapso de tempo nos amamos. Apenas os números foram pronunciados. Nada mais foi dito. Tudo estava implícito.

- Sete..

Beijo de despedida. Beijo salgado de lágrimas. Sem choro. Sem rancor. Sem medo.

- Oito.

E era o beijo do adeus. Beijo de obrigado. Beijo de fique bem sempre.

Displicentemente ela levantou-se, não sem meio segundo de hesitação. Dirigindo-se lentamenta à porta, quase parou. Olhando seu rosto de perfil, percebi um mínimo de tristeza; o que ela transportava era muito maior: serenidade e certeza.

Assim fiquei, por horas, dias, noites; não sei. Sei que ao acordar pareceu-me um sonho. Mas seu perfume, no travesseiro ao lado, não deixou-me enganar.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Conto machadiano

Mariana

de Machado de Assis

Capítulo Primeiro

"QUE SERÁ FEITO de Mariana?" perguntou Evaristo a si mesmo, no largo da Carioca, ao despedir-se de um velho amigo, que lhe fez lembrar aquela velha amiga.

Era em 1890. Evaristo voltara da Europa, dias antes, após dezoito anos de ausência. Tinha saído do Rio de Janeiro em 1872, e contava demorar-se até 1874 ou 1875, depois de ver algumas cidades célebres ou curiosas, mas o viajante põe e Paris dispõe. Uma vez entrando naquele mundo em 1873, Evaristo deixou-se ir ficando, além do prazo determinado; adiou a viagem um ano, outro ano, e afinal não pensou mais na volta. Desinteressara-se das nossas cousas; ultimamente nem lia os jornais daqui; era um estudante pobre da Bahia, que os ia buscar emprestados, e lhe referia depois uma ou outra notícia de vulto. Senão quando, em novembro de 1889, entra-lhe em casa um reporter parisiense, que lhe fala de revolução no Rio de Janeiro, pede informações políticas, sociais, biográficas. Evaristo refletiu.

— Meu caro senhor, disse ao reporter, acho melhor ir eu mesmo buscá-las.

Não tendo partido, nem opiniões, nem parentes próximos, nem interesses (todos os seus haveres estavam na Europa), mal se explica a resolução súbita de Evaristo pela simples curiosidade, e contudo não houve outro motivo. Quis ver o novo aspecto das cousas. Indagou da data de uma primeira representação no Odéon, comédia de um amigo, calculou que, saindo no primeiro paquete e voltando três paquetes depois, chegaria a tempo de
comprar bilhete e entrar no teatro; fez as malas, correu a Bordéus, e embarcou.

"Que será feito de Mariana? repetia agora, descendo a rua da Assembléia. Talvez morta... Se ainda viver, deve estar outra; há de andar pelos seus quarenta e cinco... Upa! quarenta e oito; era mais moça que eu uns cinco
anos. Quarenta e oito... Bela mulher; grande mulher! Belos e grandes amores!"

Teve desejo de vê-la. Indagou discretamente, soube que vivia e morava na mesma casa em que a deixou, rua do Engenho Velho; mas não aparecia desde alguns meses, por causa do marido, que estava mal, parece que à
morte.

— Ela também deve estar escangalhada, disse Evaristo ao conhecido que lhe dava aquelas informações.
— Homem, não. A última vez que a vi, achei-a frescalhona. Não se lhe dá mais de quarenta anos. Você quer saber uma coisa? Há por aí roseiras magníficas, mas os nossos cedros de 1860 a 1865 parece que não nascem mais.

— Nascem; você não os vê, porque já não sobe ao Líbano, retorquiu Evaristo.

Crescera-lhe o desejo de ver Mariana. Que olhos teriam um para o outro? Que visões antigas viriam transformar a realidade presente? A viagem de Evaristo, cumpre sabê-lo, não foi de recreio, senão de cura. Agora que a lei
do tempo fizera sua obra, que efeito produziria neles, quando se encontrassem, o espectro de 1872, aquele triste ano da separação que quase o pôs doido, e quase a deixou morta?

Capítulo II

DIAS DEPOIS apeava-se ele de um tílburi à porta de Mariana, e dava um cartão ao criado, que lhe abriu a sala.
Enquanto esperava circulou os olhos e ficou impressionado. Os móveis eram os mesmos de dezoito anos antes. A memória, incapaz de os recompor na ausência, reconheceu-os a todos, assim como a disposição deles, que não
mudara. Tinham o aspecto vetusto. As próprias flores artificiais de uma grande jarra, que estava sobre um aparador, haviam desbotado com o tempo. Tudo ossos dispersos, que a imaginação podia enfaixar para restaurar uma figura a que só faltasse a alma.

Mas não faltava a alma. Pendente da parede, por cima do canapé, estava o retrato de Mariana. Tinha sido pintado quando ela contava vinte e cinco anos; a moldura, dourada uma só vez, descascando em alguns lugares, contrastava com a figura ridente e fresca. O tempo não descolara a formosura. Mariana estava ali, trajada à moda de 1865, com os seus lindos olhos redondos e namorados. Era o único alento vivo da sala; mas só ele bastava a dar à decrepitude ambiente a fugidia mocidade. Grande foi a comoção de Evaristo. Havia uma cadeira defronte do retrato, ele sentou-se nela, e ficou a mirar a moça de outro tempo. Os olhos pintados fitavam também os naturais, porventura admirados do encontro e da mudança, porque os naturais não tinham o calor e a graça da pintura. Mas pouco durou a diferença; a vida anterior do homem restituiu-lhe a verdura exterior, e os olhos embeberam-se uns nos outros, e todos nos seus velhos pecados.

Depois, vagarosamente, Mariana desceu da tela e da moldura, e veio sentar-se defronte de Evaristo, inclinou-se, estendeu os braços sobre os joelhos e abriu as mãos. Evaristo entregou-lhes as suas, e as quatro apertaram-se cordialmente. Nenhum perguntou nada que se referisse ao passado, porque ainda não havia passado; ambos estavam no presente, as horas tinham parado, tão instantâneas e tão fixas, que pareciam haver sido ensaiadas na véspera para esta representação única e interminável. Todos os relógios da cidade e do mundo quebraram discretamente as cordas, e todos os relojoeiros trocaram de ofício. Adeus, velho lago de Lamartine! Evaristo e Mariana tinham ancorado no oceano dos tempos. E aí vieram as palavras mais doces que jamais disseram lábios de homem nem de mulher, e as mais ardentes também, e as mudas, e as tresloucadas, e as expirantes, e as de ciúme, e as de perdão.

— Estás bom?
— Bom; e tu?
— Morria por ti. Há uma hora que te espero, ansiosa, quase chorando; mas bem vês que estou risonha e alegre, tudo porque o melhor dos homens entrou nesta sala. Por que te demoraste tanto?
— Tive duas interrupções em caminho; e a segunda muito maior que a primeira.
— Se tu me amasses deveras, gastarias dous minutos com as duas, e estarias aqui há três quartos de hora. Que riso é esse?
— A segunda interrupção foi teu marido.
Mariana estremeceu.
— Foi aqui perto, continuou Evaristo; falamos de ti, ele primeiro, a propósito não sei de quê, e falou com bondade, quase que com ternura. Cheguei a crer que era um laço, um modo de captar a minha confiança. Afinal despedimo-nos; mas eu ainda fiquei espiando, a ver se ele voltava; não vi ninguém. Aí está a causa da minha demora; aí tens também a causa dos meus tormentos.

— Não venhas outra vez com essa eterna desconfiança, atalhou Mariana sorrindo, como na tela, há pouco. Que quer você que eu faça? Xavier é meu marido; não hei de mandá-lo embora, nem castigá-lo, nem matá-lo, só porque eu e você nos amamos.
— Não digo que o mates; mas tu o amas, Mariana.
— Amo-te e a ninguém mais, respondeu ela, evitando assim a resposta negativa, que lhe pareceu demasiado crua.
Foi o que pensou Evaristo; mas não aceitou a delicadeza da forma indireta. Só a negativa rude e simples poderia contentá-lo.

— Tu o amas, insistiu ele.

Mariana refletiu um instante.

— Para que hás de revolver a minha alma e o meu passado? disse ela. Para nós, o mundo começou há quatro meses, e não acabará mais — ou acabará quando você se aborrecer de mim, porque eu não mudarei nunca...

Evaristo ajoelhou-se, puxou-lhe os braços, beijou-lhe as mãos, e fechou nelas o rosto; finalmente deixou cair a cabeça nos joelhos de Mariana. Ficaram assim alguns instantes, até que ela sentiu os dedos úmidos, ergueu-
lhe a cabeça e viu-lhe os olhos rasos de água. Que era?

— Nada, disse ele; adeus.
— Mas que foi?!
— Tu o amas, tornou Evaristo, e esta idéia apavora-me, ao mesmo tempo que me aflige, porque eu sou capaz de matá-lo, se tiver certeza de que ainda o amas.
— Você é um homem singular, retorquiu Mariana, depois de enxugar os olhos de Evaristo com os cabelos, que despenteara às pressas, para servi-lo com o melhor lenço do mundo. Que o amo? Não, já não o amo, aí tens a resposta. Mas já agora hás de consentir que te diga tudo, porque a minha índole não admite meias confidências.

Desta vez foi Evaristo que estremeceu; mas a curiosidade mordia-lhe a ele o coração, em tal maneira, que não houve mais temer, senão aguardar e escutar. Apoiado nos joelhos dela, ouviu a narração, que foi curta. Mariana
referiu o casamento, a resistência do pai, a dor da mãe, e a perseverança dela e de Xavier. Esperaram dez meses, firmes, ela já menos paciente que ele, porque a paixão que a tomou tinha toda a força necessária para as decisões violentas. Que de lágrimas verteu por ele! Que de maldições lhe saíram do coração contra os pais, e foram sufocadas por ela, que temia a Deus, e não quisera que essas palavras, como armas de parricídio, a condenassem, pior que ao inferno, à eterna separação do homem a quem amava. Venceu a constância, o tempo desarmou os velhos, e o casamento se fez, lá se iam sete anos. A paixão dos noivos prolongou-se na vida conjugal. Quando o tempo trouxe o sossego, trouxe também a estima. Os corações eram harmônicos, as recordações da luta pungentes e doces. A felicidade serena veio sentar-se à porta deles, como uma sentinela. Mas bem depressa se foi a sentinela; não deixou a desgraça, nem ainda o tédio, mas a apatia, uma figura pálida, sem
movimento, que mal sorria e não lembrava nada. Foi por esse tempo que Evaristo apareceu aos seus olhos e a arrebatou. Não a arrebatou ao amor de ninguém; mas por isso mesmo nada tinha que ver com o passado, que era um mistério, e podia trazer remorsos...

— Remorsos? interrompeu ele.
— Podias supor que eu os tinha; mas não os tenho, nem os terei jamais.
— Obrigado! disse Evaristo após alguns momentos; agradeço-te a confissão. Não falarei mais de tal assunto. Não o amas, é o essencial. Que linda és tu quando juras assim, e me falas do nosso futuro! Sim, acabou; agora aqui estou, ama-me!
— Só a ti, querido.
— Só a mim? Ainda uma vez, jura!
— Por estes olhos, respondeu ela, beijando-lhe os olhos; por estes lábios, continuou, impondo-lhe um beijo nos lábios. Pela minha vida e pela tua!

Evaristo repetiu as mesmas fórmulas, com iguais cerimônias. Depois, sentou-se defronte de Mariana como estava a princípio. Ela ergueu-se então, por sua vez, e foi ajoelhar-se-lhe aos pés, com os braços nos joelhos dele. Os
cabelos caídos enquadravam tão bem o rosto, que ele sentiu não ser um gênio para copiá-la e legá-la ao mundo. Disse-lhe isso, mas a moça não respondeu palavra; tinha os olhos fitos nele, suplicantes. Evaristo inclinou-se, cravando nela os seus, e assim ficaram, rosto a rosto, uma, duas, três horas, até que alguém veio acordá-los:

— Faz favor de entrar.

Capítulo III

EVARISTO teve um sobressalto. Deu com um homem, o mesmo criado que recebera o seu cartão de visita. Levantou-se depressa; Mariana recolheu-se à tela, que pendia da parede, onde ele a viu outra vez, trajada à moda de 1865, penteada e tranqüila. Como nos sonhos, os pensamentos, gestos e atos mediram-se por outro tempo, que não o tempo; fez-se tudo em cinco ou seis minutos, que tantos foram os que o criado despendeu em levar o cartão e trazer o convite. Entretanto, é certo que Evaristo sentia ainda a impressão das carícias da moça, vivera realmente entre 1869 e 1872, porque as três horas da visão foram ainda uma concessão ao tempo. Toda a história
ressurgira com os ciúmes que ele tinha de Xavier, os seus perdões e as ternuras recíprocas. Só faltou a crise final, quando a mãe de Mariana, sabendo de tudo, corajosamente se interpôs e os separou. Mariana resolveu morrer, chegou a ingerir veneno, e foi preciso o desespero da mãe para restituí-la à vida. Xavier, que então estava na província do Rio, nada soube daquela tragédia, senão que a mulher escapara da morte, por causa de uma troca de medicamentos. Evaristo quis ainda vê-la antes de embarcar, mas foi impossível.

— Vamos, disse ele agora ao criado que o esperava.

Xavier estava no gabinete próximo, estirado em um canapé, com a mulher ao lado e algumas visitas. Evaristo penetrou ali cheio de comoção. A luz era pouca, o silêncio grande; Mariana tinha presa uma das mãos do enfermo, a observá-lo, a temer a morte ou uma crise. Mal pôde levantar os olhos para Evaristo e estender-lhe a mão; voltou a fitar o marido, em cujo rosto havia a marca do longo padecimento, e cujo respirar parecia o prelúdio da grande ópera infinita. Evaristo, que apenas vira o rosto de Mariana, retirou-se a um canto, sem ousar mirar-lhe a figura, nem acompanhar-lhe os movimentos. Chegou o médico, examinou o enfermo, recomendou as prescrições dadas, e retirou-se para voltar de noite. Mariana foi com ele até à porta, interrogando baixo e procurando-lhe no rosto a verdade que a boca não queria dizer. Foi então que Evaristo a viu bem; a dor parecia alquebrá-la mais que os anos. Conheceu-lhe o jeito particular do corpo. Não descia da tela, como a outra, mas do tempo. Antes que ela tornasse ao leito do marido, Evaristo entendeu retirar-se também, e foi até a porta.

— Peço-lhe licença... Sinto não poder falar agora a seu marido.
— Agora não pode ser; o médico recomenda repouso e silêncio. Será noutra ocasião...
— Não vim há mais tempo vê-lo porque só há pouco é que soube... E não cheguei há muito.
— Obrigada.

Evaristo estendeu-lhe a mão e saiu a passo abafado, enquanto ela voltava a sentar-se ao pé do doente. Nem os olhos nem a mão de Mariana revelaram em relação a ele uma impressão qualquer, e a despedida fez-se como entre pessoas indiferentes. Certo, o amor acabara, a data era remota, o coração envelhecera com o tempo, e o marido estava a expirar; mas, refletia ele, como explicar que, ao cabo de dezoito anos de separação, Mariana visse diante de si um homem que tanta parte tivera em sua vida, sem o menor abalo, espanto, constrangimento que fosse? Eis aí um mistério. Chamava-lhe mistério. Ainda agora à despedida, sentira ele um aperto, uma coisa, que lhe fez a palavra trôpega, que lhe tirou as idéias e até as simples fórmulas banais de pesar e de esperança. Ela, entretanto, não recebeu dele a menor comoção. E lembrando-se do retrato da sala, Evaristo concluiu que a arte era superior à natureza; a tela guardara o corpo e a alma... Tudo isso borrifado de um despeitozinho acre.

Xavier durou ainda uma semana. Indo fazer-lhe segunda visita, Evaristo assistiu à morte do enfermo, e não pôde furtar-se à comoção natural do momento, do lugar e das circunstâncias. Mariana, desgrenhada ao pé do leito, tinha os olhos mortos de vigília e de lágrimas. Quando Xavier, depois de longa agonia, expirou, mal se ouviu o choro de alguns parentes e amigos; um grito agudíssimo de Mariana chamou a atenção de todos; depois o desmaio e a queda da viúva. Durou alguns minutos a perda dos sentidos; tornada a si, Mariana correu ao cadáver, abraçou-se a ele, soluçando desesperadamente, dizendo-lhe os nomes mais queridos e ternos. Tinham esquecido de fechar os olhos ao cadáver; daí um lance pavoroso e melancólico, porque ela, depois de os beijar muito, foi tomada de alucinação e bradou que ele ainda vivia, que estava salvo; e, por mais que quisessem arrancá-la dali, não cedia, empurrava a todos, clamava que queriam tirar-lhe o marido. Nova crise a prostrou; foi levada às carreiras para outro quarto.

Quando o enterro saiu no dia seguinte, Mariana não estava presente, por mais que insistisse em despedir-se; já não tinha forças para acudir à vontade. Evaristo acompanhou o enterro. Seguindo o carro fúnebre, mal chegava a crer onde estava e o que fazia. No cemitério, falou a um dos parentes de Xavier, confiando-lhe a pena que tivera de Mariana.

— Vê-se que se amavam muito, concluiu.
— Ah! muito, disse o parente. Casaram-se por paixão; não assisti ao casamento, porque só cheguei ao Rio de Janeiro muitos anos depois, em 1874; achei-os, porém, tão unidos como se fossem noivos, e assisti até agora à vida de ambos. Viviam um para o outro; não sei se ela ficará muito tempo neste mundo.
"1874", pensou Evaristo; "dous anos depois".

Mariana não assistiu à missa do sétimo dia; um parente, — o mesmo do cemitério, — representava-a naquela triste ocasião. Evaristo soube por ele que o estado da viúva não lhe permitia arriscar-se à comemoração da catástrofe. Deixou passar alguns dias, e foi fazer a sua visita de pêsames; mas, tendo dado o cartão, ouviu que ela não recebia ninguém. Foi então a São Paulo, voltou cinco ou seis semanas depois, preparou-se para embarcar; antes de partir, pensou ainda em visitar Mariana, — não tanto por simples cortesia, como para levar consigo a imagem, — deteriorada embora, — daquela paixão de quatro anos.

Não a encontrou em casa. Voltava zangado, mal consigo, achava-se impertinente e de mau gosto. A pouca distância viu sair da igreja do Espírito Santo uma senhora de luto, que lhe pareceu Mariana. Era Mariana; vinha a pé; ao passar pela carruagem olhou para ele, fez que o não conhecia, e foi andando, de modo que o cumprimento de Evaristo ficou sem resposta. Este ainda quis mandar parar o carro e despedir-se dela, ali mesmo, na rua, um minuto, três palavras; como, porém, hesitasse na resolução, só parou quando já havia passado a igreja, e Mariana ia um grande pedaço adiante. Apeou-se, não obstante, e desandou o caminho; mas, fosse respeito ou despeito, trocou de resolução, meteu-se no carro e partiu.

— Três vezes sincera, concluiu, passados alguns minutos de reflexão.

Antes de um mês estava em Paris. Não esquecera a comédia do amigo, a cuja primeira representação no Odéon ficara de assistir. Correu a saber dela; tinha caído redondamente.

— Cousas de teatro, disse Evaristo ao autor, para consolá-lo. Há peças que caem. Há outras que ficam no repertório.

FIM

terça-feira, 11 de junho de 2013

Cordel do Fogo Encantado (banda)

Hoje minha dica será musical.

Ok, parte musical, parte poética. Logo mais vocês entenderão.

Eu tenho o privilégio (para alguns, maldição) de ir para a faculdade, todos os dias, com transporte coletivo. Muitas vezes pensei que fosse um perda tempo, uma hora para a ida, uma hora para a volta. Entretanto nesses 5 anos de andanças, consegui ocupar muito bem esse tempo.
Durante esse trajeto aproveitei sempre para ter à mão duas coisas: livros e músicas.
Quanto aos primeiros tive a chance de ler os grandes clássicos: 'Crime e Castigo' e 'Os Irmãos Karamazóv', ambos de Dostoiévski; 'Os sofrimentos do jovem Werther', de Goethe; 'Clube da luta', de Chuck Palahniuk; alguns do Machado de Assis, dentre outros tantos (e foram tantos...).

Quanto às músicas, tenho um velho hábito: quando conheço alguma obra de alguém, procuro conhecê-la a fundo; então procuro não apenas alguma música que fez ou faz sucesso (vide postagem Lado A. Lado B.), mas sim tento encontrar a obra completa. Tendo ao alcance, escuto os álbuns do início ao fim; tentando entender o contexto, o que se passa na cabeça dos autores e tento conhecer um pouco mais de cada música que me toca os ouvidos.

Pois bem, dia desses encontrei em meus arquivos de mídia o álbum 'Cordel do Fogo Encantado', da banda de mesmo nome (não! não tem nada a ver com aquela novelinha chinfrim da Globo) e resolvi ouvi-lo novamente. Há anos eu o escutava completo e gostava de ouvi-lo, mas, por qualquer razão não tão aparente agora, deixei de lado.

Senhores!! Que disco!

Essa banda começou como um grupo de teatro, mesclando música, poesia e representação. A primeira vez que os ouvi foi num programa que a MTV tinha (creio ser o MTV Roots, mas posso estar enganado) onde a mesma tocava sons de bandas não tão conhecidas do circuito nacional. Na hora que vi o clip já gostei da banda, então resolvi conhecer um pouco mais da banda.

Os caras dessa banda misturam literatura de cordel, poesia, cultos africanos, o uso constante de diversos instrumentos de cordas (violino, banjo, guitarras), instrumentos de percursão (tambores diversos, bumbos) e usam, também, de um grupo de vocais que fazem as músicas parecerem verdadeiros mantras.

Esse grupo já foi desfeito, no entanto ficaram três registros sonoros ('Cordel do fogo encantado', 'O palhaço do circo sem futuro' e 'Transfiguração') e um audiovisual ('MTV apresenta') dessa incursão pela música e poesia que fazem valer a pena ligar o som no volume alto, apagar as luzes e se deixar levar.

Passem o olho por esses versos que transcrevo abaixo e percebam a beleza contida neles (quando conseguirem o vídeo ou o áudio verão quanto mais belos ficam):

POEIRA

O pão que nasce do fogo
Na roda da saia
Na gira da terra
O vento que rasga telhado
Tambor ritmado
Trompetes de guerra
A guerra que traz a poeira
Que bate na gente
Poeira que vem do sertão
Configuração
Bafo quente

Vem poeira
Vem poeira
Vem poeira

Trago poeira da terra queimada e a fumaça
Ah! Sequidão, sequidão pojuca
Malhada Craíba
Juazeiro torto
Moxotó velado
Serra das Varas

Trago poeira da terra queimada e a fumaça
Ah! Sequidão, sequidão pojuca
Malhada Craíba
Juazeiro torto
Moxotó velado
Cabrobó Floresta Belém do São Francisco
Terra das Massas

Eu vou voltar
Caraíba, mãe vou simbora
Carcará
Eu vou voltar

TOADA VELHA CANSADA

Chega
Toada velha cansada
Atrás do fogo encantado
Nesse terreno sem cerca

Seca
Meu olho teu caldeirão
Teu colo meu oratório
Teu sonhos meu cobertor

Teu riso tem um corisco
Teu peito tem um trovão
É só a gente se ver
chove no meio do verão
Água que lava terreiros
(Oi que lava terreiros)
Oi que lava Janeiros, sertão

Eita mulher voadeira
Misterioso pavão
O riso teu tem corisco
E o peito teu tem trovão
E os meus dois olhos bandeiras
Fogueiras clarão (São João)

Eia
Minha cumadre Fulô
Quero teu cheiro de mato
Tua passada invisível

Vivo
Na catingueira da serra
Cheguei montado no vento
Poderes do teu feitiço

OS ÓIM DO MEU AMOR

Ê nunca mais eu vi
Os oím do meu amor
Nunca mais eu vi
Os oím dela brilhar
Nunca mais eu vi
Os oím do meu amor
São dois jarrinho de flor
E todo mundo quer cheirar

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Greta!

Nome como pedra,
Olha como brisa,
Anda como pássaro,
Suspira como morte.

Vejo-te e tremo,
Quisera tocar,
Beijar-te os lábios,
Olhos entreabertos.

Minutos como horas,
Horas, eternidade.
Um dia, uma vida.
Momento. Único.

Longe estou,
Distante permaneço.
Contemplando a beleza,
De ti emanada.

Ai de minha voz
Não ser ouvida.
E nunca percebido
O carinho nos olhos meus.

--
1berto

terça-feira, 4 de junho de 2013

Novas postagens

Ahhh,,,, há dias que venho tentando ter alguma idéia nova para
postagens no blog, mas não tá rendendo nada.
Comecei uns textos, alguns esboços, outros rascunhos, e no entanto
ficaram muito ruins.
Prometerei um esforço para que surja algo novo. A monografia está me
tomando um tempo imenso. E a paz de espiríto deixa-me tranquilo demais
para certa polêmica. (Um escrito é um maldito.)
Tmabém tenho que me organizar melhor; ontem à noite brotaram-me frases
e parágrafos na cabeça, entretanto o frio e o sono impediram-me de
torná-los um texto.
E, ao final, essa manhã não conseguia mais lembrar dos objetos iniciais.

Aguardem, seguidores desse blog. A qualquer hora minha mente divagará
novamente e postarei algo que preste.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Como fosse nadar


Eu sinto saudades de tomar banho no rio.

Minha cidade é banhada pelo Rio Uruguai (um pouco mais 'acima' é Rio Pelotas) e desde pequeno, no verão, meu pai levava-me todos os finais de semana para dar 'um bico' na balsa. Nossa! Como era bom. Minha mãe ficava em casa surtando com os perigos que esse passeio poderia trazer, entretanto meu coroa sempre foi muito cuidadoso e conhecedor do rio (afinal, desde os 4 anos de idade ele nadava no Uruguai).

Hoje em dia ele - o Uruguaizão - não é mais rio. Nem sei o que ele é. Após o advento da Usina Hidrelétrica de Itá ele transformou-se num lago ou bacia ou lagoa... E tornou-se muito triste. Ao menos para mim. O que eu gostava era das corredeiras, do barulho das águas ao encontrarem-se com os pilares da ponte, do 'canalão' (um lugar muito, muito, muito fundo) e da diversão que o rio nos proporcionava.

Você entrava na água e a correnteza te levava; então você nadava contra ela, ziguezagueando, mergulhando, braçada após braçada. Deixava-se levar, novamente, rio abaixo, descansando, reunindo forças e esperando uma nova oportunidade de enfrentar a água. E a batalha recomeçava. Eu sempre mirava um ponto fora e traçava como objetivo ultrapassá-lo; as forças se recompunham, a concentração era grande e todo o corpo conspirava para que a meta fosse atingida. Bons tempos aqueles...

Percebo que o nosso dia-a-dia assemelha-se àquela luta com o rio. Existem dias que precisamos ficar inertes, sem fazer muito esforço, descansar o corpo e a mente; mas esses dias servem apenas para dar gás para as próximas braçadas. Servem de estímulo para alcançarmos os nossos objetivos. O que garanto-lhes, amigos, é que deixar-se levar pelas águas é maravilhoso; no entanto o que realmente te satisfaz é nadar contra a corrente.

sábado, 18 de maio de 2013

Diálogo

Acabei de dar vinte reais ao Vicente. 
Desenvolveu-se o diálogo:
- Hum, o que eu posso comprar com esse dinheiro?
- O que tu quiser.
- Um picolé?
- Não, né. Óia a friaca.
- Um passarinho e uma gaiola. 
- Não né, meu.
- Uma astronave?
- Carinha, não. 
- Então não me diz que eu posso comprar o que eu quiser.
- ...

#cuidado com o que você fala para uma criança.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Verbos


Houve um dia em que nosso amor nasceu
Foi um dia em que o tempo parou
O sentimento entre nós aconteceu
E não mais que de repente acabou

Houve um dia em que nosso amor nasceu
Foi um dia em que o tempo aconteceu
O sentimento entre nós parou
E não mais que de repente acabou

Houve um dia em que nosso amor aconteceu
Foi um dia em que o tempo acabou
O sentimento entre nós nasceu
E não mais que de repente parou

Houve um dia em que nosso amor acabou
Foi um dia em que o tempo parou
O sentimento entre nós nasceu
E não mais que de repente aconteceu

Houve um dia em que nosso amor parou
Foi um dia em que o tempo nasceu
O sentimento entre nós aconteceu
E não mais que de repente acabou

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Corvo


Eu, hoje, não lutaria para ser um rei. Não gostaria de ter nascido príncipe; não estudaria para ser meistre. Não faria questão de ser um lorde, um sor ou um membro juramentado da guarda real. Tampouco faria diferença ser um famoso bastardo do norte ou um dos muitos bastardos Frey. Um selvagem? Quem sabe. No entanto o desejo verdadeiro agora seria de vestir o negro e tornar-me membro da Patrulha da Noite, prestando o juramento:


"Escute as minhas palavras e testemunhem os meus votos. A noite chega, e agora começa minha vigília. Não terminará até a minha morte. Não tomarei esposa, não possuirei terras, não gerarei filhos. Não usarei coroas e não conquistarei glórias. Viverei e morrerei no meu posto. Sou a espada na escuridão. Sou o vigilante nas muralhas. Sou o fogo que arde contra o frio, a luz que trás consigo a alvorada, a trombeta que acorda os que dormem, o escudo que defende os reinos dos homens. Dou minha vida e a minha honra a Patrulha da Noite. Por esta noite, e por todas as noites que estão por vir. "

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A garota dançando

Você pode descobrir muito de uma garota quando ela está dançando.

Digo 'muito' porque você, amigo, nunca, N-U-N-C-A, nunquinha irá saber tudo dela. Mas quando ela dança pode mostrar uma parte do que ela representa. Você até poderia descobrir um pouquinho mais se pudesse vê-la dançando quando ela escolhe a música, coloca sua roupa mais confortável e dança sozinha, em casa, fechada no seu quarto. Entretanto, estando ela sozinha, você não estará ali partilhando daquele momento.

Pense numa pessoa que você conhece, famosa ou não, e imagine-a (se você não pôde ver ainda) dançando. Pode ser aquela loura de corpo dourado que você cruzou nos corredores do mercado, a morena de pele branca e macia que sempre que te vê mia um ooooi ou aquela morena jambo, saca?, que você encontrou na escadaria do seu prédio. Pode ser qualquer uma, menos as ruivas e as modelos, que essas são mulheres diferentes (explicarei em outra oportunidade).

Digo isso porque dias atrás fui numa festa; uma balada. Saí com alguns amigos para beber, ouvir uma música alta e ver a movimentação das pessoas. Uma, em particular chamou-me a atenção. Uma lourinha de metro e sessenta, nem magra nem gorda, regata branca delineando-a, uma calça jeans justa e um par de botas que chegava até quase o joelho. Na sua mão, ora esquerda ora direita, pousava um copo com alguma bebida doce - porque ela tinha jeito de que tomava bebida doce - algum coquetel tipo hi-fi ou marguerita ou gin-tônica.

Bem, ela estava num grupo de mais ou menos 5 pessoas. No entanto, assim que uma música começou a tocar, parecia estar sozinha, seus olhos fecharam-se e ela começou a serpentear na pista. Dobrava levemente os joelhos esquerdo-direito-esquerdo-direito, nesse ir e vir ritmado e sensual, entre um gole e outro, alternando com o levantar do queixo, ajeitando levemente seus cabelos soltos. Cara, que momento!! Ela não ignorou simplesmente seus amigos - ela estava alheia a tudo, em seu pequeno espaço, o qual conseguia apenas dar um no máximo dois passos - estava completamente só. Eu, apenas observando de muito longe, me senti um intruso. Tive vontade de arrastar todas as pessoas que estavam ali para fora do lugar. Mas não havia necessidade, nós não existíamos. Pelos poucos minutos que a música foi executada, para aquela moça, o mundo era apenas aquilo e tudo aquilo.

Logo parei de observá-la e deixei-a com seus movimentos ondulantes. Pude perceber o quão segura de si ela sentia-se. Não tinha medo, nem pudores, nem preocupações. Tampouco sentia-se vazia. Era uma mulher que parecia saber o que queria. Mas, principalmente, pude constatar que ela sabia onde quer chegar.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Conto de amor #1

Era uma vez ele e ela.

O romance durou três dias:

No primeiro, amaram-se;
No segundo, enjoaram-se;
No terceiro, separaram-se.

Típica história de amor.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Angústia - Paul Verlaine

Nada em ti me comove, Natureza, nem 
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos, 
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro, 
A solene dolência dos poentes, além. 

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções, 
Da poesia, dos templos e das espirais 
Lançadas para o céu vazio pelas catedrais. 
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons. 

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer 
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar 
Dessa velha ironia a que chamam Amor. 

Já farta de existir, com medo de morrer, 
Como um brigue perdido entre as ondas do mar, 
A minha alma persegue um naufrágio maior. 


Paul Verlaine, francês. Um dos maiores poetas de todos os tempos.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Lado A. Lado B.



Você está ligado nos discos de vinil? Pois é...

Os "LP's" traziam em si a possibilidade de gravações em ambos os lados, chamados de Lado A e Lado B. Percebi, na maioria das vezes, que os discos tinham em seu Lado A as músicas mais famosas e comerciais (também chamadas de 'música de trabalho') que eram as que tocavam no rádio. Com elas a popularidade do álbum e da banda (ou artista) aumentava ou diminuia, conforme a recepção do público. Essas músicas, por serem tradicionalmente de vendagem, logo me enchiam o saco. Eram o que os produtores do álbum queriam (às vezes forçando a gravá-las) e não a total vontade do artista.

Entretanto em seu Lado B vinham as experimentações, a naturalidade e o que os artistas realmente tinham de verdadeiro. Todos (na época) éramos atraídos pelo Lado A, no entanto o que realmente significava era o B. Era de lá que vinha explicitada a veia sonora e intelectual de cada qual que fazia música. Ali estavam os anseios, os medos, as realidades, as cruezas, os detalhes.

É assim que vejo as pessoas.

Vivemos em um mundo de pessoas comerciais. Elas tentam a todo momento te 'vender' uma imagem, um produto que vem mascarado, ou seja, um Lado A que habita nelas. Incentivado cada vez mais pelas mídias e redes sociais, esse lado pode se tornar prejudicial para a pessoa. Da mesma forma que alguns artistas são conhecidos por 'a banda de uma música só', esses indivíduos tem a tendência a ficarem rotulados. Por culpa dos próprios, seu A torna-se o álbum inteiro. Deixam escondido dos outros o que tem de real para mostrar.

Por isso que prefiro o Lado B dos seres. É nele que vê-se como a pessoa realmente é. Seus medos, suas fraquezas, suas forças e seus desejos. Nota-se a essência quando o que percebe-se é a imperfeição. Naturalmente ninguém é perfeito e isso já seria um requisito inquestionável para agirmos com total liberdade.

Entendo que o mundo não funciona assim. Que o que temos a disposição é um catálogo de formas a escolha de cada um. Compramos o que vemos, ou não. Colocamos a venda o que temos, ou não. A primeira impressão é a que fica. Mas o que conta são suas particularidades. O que vale é o seu Lado B.

Questão de Direito Constitucional


O que são as Imunidades Parlamentares, suas formas, desígnios e atribuições?

As imunidades parlamentares são prerrogativas inerentes à função parlamentar para garantir o exercício do mandato parlamentar com plena liberdade.

Elas são de dois tipos: 

1 - imunidade material, real ou substantiva (denominada também de inviolabilidade): está elencada no caput do art. 53 da CF/88 e implica na exclusão da prática de crime, bem como a inviolabilidade civil, pelas opiniões, palavras e votos dos parlamentares;

2 - imunidade processual, formal ou adjetiva: art. 53, §§ 2º a 5º, CF/88, traz as regras sobre prisão e processo criminal dos parlamentares.

Na sua essência, essas prerrogativas atribuídas aos parlamentares, visam garantir a democracia, na medida em que os mesmos podem livremente manifestar suas opiniões, garantindo-se contra prisões arbitrárias, ou mesmo rivalidades políticas.

A imunidade material ou inviolabilidade parlamentar, é garantida aos parlamentares federais regendo que os mesmos são invioláveis, civil e penalmente, por qualquer de suas opiniões, palavras e votos, desde que proferidos em razão de suas funções parlamentares, onde estiver, não se restringindo ao âmbito do Congresso Nacional. Assegura a independência do parlamentar no exercício de suas atribuições.

Com relação à imunidade formal para a prisão, os parlamentares gozam de seus benefícios a partir do momento em que são diplomados pela Justiça Federal. 
A regra geral nos diz que os parlamentares não poderão ser presos, seja a prisão penal ou a prisão civil. Entretanto há uma única exceção à regra, qual seja, a de prisão em caso de flagrante de crime inafiançável; no entanto, mesmo nessa hipótese, os autos deverão se remetidos à Casa Parlamentar respectiva, no prazo de 24 horas, para que, pelo VOTO DA MAIORIA ABSOLUTA DE SEUS MEMBROS, resolva sobre a prisão. 
Destaca-se que devido a inclusão da Emenda Constitucional 35/2001, a votação dos congressistas não será secreta e, sim, pelo voto aberto. Após o advento dessa EC, também designou-se que a denúncia poderia ser diretamente recebida no STF, sem a prévia licença da Casa respectiva (onde, em muitos casos, não era deferida a prisão), devendo o STF, assim que recebida a denúncia, dar ciência à Casa respectiva do Parlamentar, que por inciativa de partido político nela representado e pelo voto da maioria dos seus membros, poderá, até a decisão final, sustar o andamento da ação.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

To F



É incrível a quantidade de erros que cometemos.

Um simples gesto impensado, uma palavra mal proferida ou um momento desperdiçado, e conseguimos estragar as coisas.

Erramos tentando acertar, pecamos pelo exagero, trocamos os pés pelas mãos; lugares-comuns esses. A mais pura verdade.

Tentei eternizar um pedaço seu. Dedos lindos, unhas coloridas, uma aperto de mão, a vontade de ser o outro. Delirando, perdi-me em devaneios e senti-me ruborizar perante todos.

Tarde demais para voltar atrás.

Mas não tarde para admitir o erro e redimir a culpa. 

Espero que compreenda e um dia, quem sabe, me perdoe.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

lua

e a lua serena aparece
e parece voar
e parece arder
e parece brilhar

do fogo, a luz
da pedra, o céu
da noite, o sol
do olho, o véu

brinca de surgir
uma briga estelar
no mar de escuridão
esperança a alentar

aos simples, não existe
aos amantes, castiçal
aos que fogem, ingratidão
aos poetas, ideal

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Aqui é meu lugar!


Escreva uma carta


Isso mesmo! Pegue um papel e uma caneta. Coloque uma música que goste e abra a janela. Ponha-se a escrever.

Deixe com que sua mente divague, com os dedos soltos, sem medo, leve e simples. Escreva sobre a saudade que sente daquela pessoa, sobre o último encontro que tiveram, lembranças da turma do colégio, um convite para sair, uma viagem a programar. Faça com que as palavras saiam naturalmente, não force nada, apenas chegue ao fim de uma frase; e outra e outra e outra.

Ok, sei que os meios digitais tornam tudo isso mais fácil. Entretanto  as redes sociais estão cada vez mais chatas. O e-mail continua frio como a tela do computador. Nem um nem dois SMS's conseguem transmitir o que realmente você quer dizer.

No papel sente-se onde a mão treme quando se escreve uma palavra significativa, deixa marcas onde uma lágrima cai na construção de uma frase, percebe-se o tamanho da emoção ao concluir um parágrafo. Não há corretor ortográfico (e também não fica nada feio quando algum erro surge como equívoco), nem espaçamento automático, muito menos tipo e tamanho da fonte. Sublinhe; rabisque; desenhe; permita-se! 
O papel aceita tudo.

Ao final dessa função pegue um envelope, aponha o endereço e saia de casa. Sim, compre um selo, não sem no trajeto olhar em volta o ambiente, o espaço, aquela manhã de sol, um pássaro cantando, as pessoas andando apressadas (sempre!). Entregue a carta numa caixa de coleta (aquelas amarelinhas, saca?), ou no Correio. E aguarde.

Esse tempo de aguardo é fenomenal. A pessoa do outro lado nem imagina o que está para chegar. Você fica apreensivo 2, 3, 4, 5 dias até que sua carta é entregue. E aí, amigo, garanto que o mundo se transforma. O destinatário se surpreenderá. Imaginará que você dispendeu um pequeno tempo de sua vida para dedicar-se exclusivamente em escrever algumas palavras para ele. Perceberá a grandiosa importância que tem aquele simples papel e uns garranchos escritos. É capaz de você receber de volta uma resposta nos mesmos moldes escrita por aquela pessoa ou mesmo o simples SMS.

Mas a maior recompensa é você imaginar a reação da pessoa ao receber, em meio as contas de água/luz/faturas de cartão, um envelope escrito à mão. Certamente um sorriso brotará no rosto dela.

Faça isso agora!

Escreva uma carta