quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
Sentidos
No meio da madrugada, sobressaltado, acordei. Tateei a cama inteira; cacei peças de roupa debaixo do travesseiro; respirei fundo procurando o perfume; chamei o nome - uma vez, duas, três vezes. A luz do abajur ligada trouxe-me sombras, em vez de clareza; quanto mais escondia muito mais me esperançava. Nos cômodos da casa apenas o eco da voz (a minha?). Sentado na cama recordei que minutos atrás nossos olhares se cruzavam, assim como nossos dedos, braços e pernas. Afagávamos um ao outro e nos afogávamos em beijos. Sentíamos a dependência e medo algum de não sermos um só. No meu peito fizeste moradia, no teu encontrei um lar. A felicidade que senti deu lugar a tristeza de nada disso ser realidade. Pelo vidro da janela percebi então: os sentidos que haviam em mim caíam lá fora em forma de chuva.
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Romeu & Julieta - Trecho - Shakespeare
"Quem é aquela dama, que dá a mão ao cavalheiro agora?
Ah, ela ensina as luzes a brilhar!
Parece pender da face da noite
como um brinco precioso da orelha de um etíope!
Ela é bela demais pra ser amada
e pura demais pra esse mundo!
Como uma pomba branca entre corvos,
ela surge em meio às amigas.
Ao final da dança,
tentarei tocar sua mão,
pra assim purificar a minha.
Meu coração amou até agora?
Não, juram meus olhos.
Até esta noite eu não conhecia a verdadeira beleza."
Ah, ela ensina as luzes a brilhar!
Parece pender da face da noite
como um brinco precioso da orelha de um etíope!
Ela é bela demais pra ser amada
e pura demais pra esse mundo!
Como uma pomba branca entre corvos,
ela surge em meio às amigas.
Ao final da dança,
tentarei tocar sua mão,
pra assim purificar a minha.
Meu coração amou até agora?
Não, juram meus olhos.
Até esta noite eu não conhecia a verdadeira beleza."
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
Relato de um copeiro, por Murilo Loss Franzen
Tudo começou no dia 18/04/1990, três dias após o meu nascimento. Eu era apenas um recém-nascido com 3,1 kg, 47 centímetros, olhos verdes e com uma alma já campeã. Meu time o Grêmio tinha acabado de ser o Supercampeão do Brasil e três meses depois (29/07/1990) campeão gaúcho pela 28° vez. Não entendia quase nada o que se passava ao meu redor, e muito menos o que seria uma partida de futebol, mas já tinha a certeza que ali nascia e crescia junto comigo um amor insubstituível e uma paixão indescritível.
O tempo foi passando e esse amor, essa paixão foi ganhando forças, eu já não era mais aquele recém-nascido de 3,1 kg, já conseguia intender um pouco o que era futebol, o que era um título brasileiro, o que era um título da copa do Brasil, o que era um título da libertadores da América, e o que era um título mundial, pois meu pai seu Waldemar (outro gremistão), conhecido como Alemão, já garganteava que nós éramos campeões de todos esses títulos.
Se tudo isso já não bastasse, quando cheguei aos meus 5 aninhos de idade já tinha visto meu time ser campeão invicto da copa do Brasil (1994) e 3 vezes campeão gaúcho (1990, 1993,1995), e foi nesse ano, em 1995 que eu ganhei o meu primeiro ídolo tricolor, o nome dele era PAULO NUNES. Lembro-me como se fosse ontem quando ganhei dos meus avós a camisa número 7 do vulgo Paulo Bala. Sem dúvida o melhor presente que eu já havia ganhado... até o dia 23/08/1995 quando vi o meu ídolo aos 10 minutos do segundo tempo marcar o seu gol no primeiro jogo da final da taça libertadores da América! Haaa esse sim foi um presente! Sete dias depois (30/08/1995) eu pude gritar "É campeããão!", pois meu time era Bicampeão da América!
No ano seguinte, já era um Gremista completamente fanático, já não perdia um jogo do meu tricolor, e foi em um desses jogos de 1996 que eu vi essa máquina golear o time argentino chamado de independiente por 4 x 1, com direito a gol dele, o diabo loiro! o meu ídolo Paulo Nunes aos 35 minutos do segundo tempo! e com isso levar para o Olímpico Monumental o título de Campeão da Recopa Sul-Americana.
Mas o ano ainda não havia acabado, e muito menos os títulos, dia 15/12/1996 eu vi o meu Grêmio ser Bicampeão Brasileiro. Era um título atrás de outro, éramos um exemplo de time. Em 1997 mais uma vez fomos campeões invictos da Copa do Brasil, título que novamente se repetiu em 2001. Éramos o único time Brasileiro a ser Tetracampeão da Copa do Brasil.
Em 2004 tivemos um tropeço e acabamos rebaixados para a segunda divisão do campeonato brasileiro do ano de 2005, mas conseguimos voltar como campeões da série B em um jogo que ficou conhecido mundialmente como “a batalha dos aflitos”, onde o Grêmio precisava da vitória e no decorrer do segundo tempo marca-se um pênalti contra a minha equipe e gera uma confusão generalizada que paralisou o jogo por 27 minutos e que levou a expulsão de 4 jogadores do Grêmio. Éramos apenas em 7 jogadores e tínhamos um pênalti a favor do adversário. A continuação dessa história vou deixar que o narrador da partida, Pedro Ernesto Denardin conte com suas palavras: “É inacreditável, I-na-cre-di-tá-vel: com sete homens em campo, com sete homens em campo o Grêmio está fazendo uma façanha. Só o Grêmio, a sua força, a sua fé, eu nunca vi disso, o mundo nunca viu nada parecido. O Grêmio está fazendo uma façanha extraordinária, uma façanha que não tem na história do futebol mundial”. Nosso goleiro Galatto pegou o pênalti e ainda marcamos um gol!
Em 2007 tive novamente a sensação de poder ganhar a libertadores, mas fomos derrotados na final pelo Boca Juniors. No dia 10/10/2012 me tornei sócio torcedor gremista, no mesmo ano presenciei o último jogo do olímpico monumental e o magnífico espetáculo de inauguração da nova arena do Grêmio.
Na noite do dia 25 de julho de 2013 foi criado em minha cidade o consulado do Grêmio. Estavam presentes no evento o diretor adjunto regional Carlos Emanuele e seu adjunto Marcelo Basso que me nomearam cônsul da cidade. Como cônsul passei pela maior crise de título do Grêmio, não foi fácil, mas NUNCA o abandonei, estivemos juntos para o que der e vier. Mas a crise já é passada, vamos voltar a falar dos momentos de glórias.
Depois do jejum o próximo título aconteceu apenas em 2016, o técnico Renato Portaluppi resgatou a alma copeira que é característica do Grêmio e nos proporcionou o pentacampeonato da copa do Brasil. Um título muito comemorado, tornando mais uma vez o Grêmio “O Rei de Copas!”.
Tenho certeza que essa história de Amor terá muitas páginas ainda... quem sabe ainda nesse ano de 2017 com o tri da América!
Somos copeiros, somos guerreiros, e estaremos contigo meu grêmio no que der e vier. Vamos torcer, gritar e cantar junto com a melhor Banda e a Melhor torcida do Mundo. Se depender do meu apoio e da minha torcida esse ano a copa é nossa!
Murilo Loss Franzen
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
repetições
releio livros que gostei. dostoiévski, jane austen, goethe, wilde, bukowski, machado de assis. recorro a eles sempre que preciso mergulhar em mim mesmo. escuto, invariavelmente, as mesmas bandas. doors, led, pink, nirvana, pearl jam. uso-as como regentes da trilha sonora da minha vida. o mesmo com filmes e séries. histórias que já vi serem contadas mas que a cada vez me surpreendem com detalhes que antes passavam despercebidos. meus sonhos não seriam diferentes. ainda não me acostumei a vê-la nas madrugadas. nem me acostumarei, depois desse tempo todo. a cada vez que ela sorri, sorrio junto com ela. quando ela me toca, toca-me a alma. se beijos acontecem, muitos mais eu imagino ao acordar. nem me importa que não a tenha, tenho-a em mim. e desejo que se repita. todas as noites ao fechar dos olhos meus.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
sentimentos
momento estranho quando um sentimento se congela. deixa de crescer. não diminui. nem morre. se morresse, espaço surgiria para a chegada de algo novo. mas não. dentro do peito se fez morada e não quer se mudar. nada muda. a perda dos sentidos no toque da pele; o brilho de um olhar no outro; a falta de palavras quando se tem muito a dizer; o ir e vir do respirar desconexo com a batida do coração: não há. esperanças a muito abandonadas. sonhos apenas noites mal dormidas. futuro? imagens distorcidas e embaçadas do que poderia mas sabemos que nunca irá acontecer.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Tarde demais
Eu nunca soube a coisa certa a dizer. Na minha cabeça formulava frases que achava oportunas para o momento. Não eram. Tudo saía confuso assim que abria a boca. O que eram meus desejos tornavam-se súplicas. O que eram medos tornavam-se inseguranças. O que foram sonhos, pesadelos se tornavam. Frente a frente gaguejei. Desviei meus olhos. Segurei a respiração e tentei frear meus impulsos. Apenas uma vez! Não, não diga nada! Ao retomar os sentidos percebi que era tarde demais. Eu conseguia ver as palavras chegando aos ouvidos dela e sabia que o arrependimento viria tarde demais.
quinta-feira, 16 de março de 2017
manhã e tarde
Eram os últimos momentos da madrugada, a noite já havia terminado a muito tempo. Tateei no escuro até encontrar o interruptor do abajur. Ainda sentado na cama perpassei na minha cabeça os sonhos da noite; meus pés descalços e meio dormentes sentiram o contato com o assoalho gelado. A água esquentando, o café na xícara, as lembranças todas surgindo. Lá fora a escuridão era total. Enrolei-me num casaco que estava à mão e aguardei os primeiros raios de sol.
Pouco a pouco as estrelas foram se apagando, por detrás do morro a claridão iniciava a batalha contra as trevas. Em meio ao vapor do líquido que fumegava na minhas mãos te vi. Vagarosamente galgando os degraus que vinham em minha direção. Fechei os olhos percebendo a ilusão e ao abri-los continuavas vindo. O calafrio que percorreu meu peito logo deu lugar ao calor que advinha do teu abraço. Nos meus braços o encaixe perfeito de dois que tornam-se um. O sol chegando quase confundiu-se com o brilho do teu olhar. No teu beijo o gosto inigualável de paixão.
Por um dia inteiro pertencemos apenas a nós mesmos. O que vimos do dia foram apenas os primeiros minutos e os raios que ultrapassavam a persiana.
Assim como vieste ao nascer da manhã foste embora ao findar a tarde. Flutuando em direção ao poente ceguei meus olhos até ver-te sumir no horizonte. Ao abri-los, novamente, a lâmpada ao lado da cama e os pés no chão frio me trouxeram a realidade de mais um sonho que criei.
Pouco a pouco as estrelas foram se apagando, por detrás do morro a claridão iniciava a batalha contra as trevas. Em meio ao vapor do líquido que fumegava na minhas mãos te vi. Vagarosamente galgando os degraus que vinham em minha direção. Fechei os olhos percebendo a ilusão e ao abri-los continuavas vindo. O calafrio que percorreu meu peito logo deu lugar ao calor que advinha do teu abraço. Nos meus braços o encaixe perfeito de dois que tornam-se um. O sol chegando quase confundiu-se com o brilho do teu olhar. No teu beijo o gosto inigualável de paixão.
Por um dia inteiro pertencemos apenas a nós mesmos. O que vimos do dia foram apenas os primeiros minutos e os raios que ultrapassavam a persiana.
Assim como vieste ao nascer da manhã foste embora ao findar a tarde. Flutuando em direção ao poente ceguei meus olhos até ver-te sumir no horizonte. Ao abri-los, novamente, a lâmpada ao lado da cama e os pés no chão frio me trouxeram a realidade de mais um sonho que criei.
quarta-feira, 8 de março de 2017
(não foi) tempo perdido
tinham a cor da tempestade chegando, os olhos castanhos dela. e como a cor havia também a intensidade. ao aproximar-se varreu tudo que havia em mim. vento, água, terra, céu, ar - todos eu perdi. piscá-los foi a minha perdição. daquele momento em diante soube que levaria onde fosse aquele brilho acompanhado do sorriso mais lindo que havia visto. desejei mais que tudo em ter os braços dela envolvidos nos meus. não houve nada disso. éramos tão jovens. desde aquele tempo tenho marcado na retina todas as vezes que mirei o fundo dos seus olhos. no ouvido levo a música que diz não ter sido tempo perdido. cada qual tem seu próprio tempo e os nossos ponteiros nunca se acertarão.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Eliminando verbos
Estou tentando escrever algo novo; algo que explique velhos sentidos. Queria mudar os verbos, no entanto são os que me movem: pensar, saber, perceber, acreditar, querer, lembrar, imaginar, desejar, sonhar, amar. Verbos são ações, mesmo que não façam mudar; elimino-os e nada mais resta em mim. A folha em branco aguarda o beijo da tinta. Minhas noites desejam os sonhos. Meus olhos suplicam imagens. Minha voz não sai e meu peito infla com um vazio impossível de preencher.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Vontades - por Jader Pires*
Tudo que eu mais queria nessa noite era dormir com a mão nas tuas coxas. A garota que eu conheci no bar já estava dormindo no meu quarto, então desliguei tudo, apaguei as luzes e atravessei a sala feito espectro. Nada se mexeu e nenhum som foi percebido. O calor que fazia era tremendo e foi curioso perceber que eu não estar suando. Nenhuma gota brotava em meu rosto, no peito. Era como se eu fosse capaz de reter tudo que pudesse sair de mim e chamar atenção. A vontade de você era uma delas.
Meu corpo lânguido chegou na cozinha ainda no escuro e, por conhecer bem a disposição de todos os móveis e eletrodomésticos, não trombei em nada e não tive dificuldade em atravessar o pequeno corredor que liga esses dois cômodos da casa. Tomei um copo grande de água quase de uma vez, em poucas goladas que me fizeram acentuar a respiração.
O desejo era tanto que, quando dei por mim, passou já mais de vinte minutos que eu estava na mesma posição, com as mãos apoiadas na pia e os olhos mirando um nada. Tomei então a decisão de queimar todos os frames de minha mente acendendo a luz e encarando minha fraqueza no reflexo da porta do microondas. Foi aí que minha imaginação provou ser bem mais forte do que eu podia pensar, pois eu ainda tinha milhões de cenas pra me aguçar, mesmo sabendo que, nessa noite, você não seria minha de forma alguma.
Não voltei pra cama, pro meu quarto. Nessa noite, a esperança é que foi minha parceira e me acompanhou na madrugada sem sono.
* Jader Pires é escritor e editor da Meio Fio e do Papo de Homem.
Meu corpo lânguido chegou na cozinha ainda no escuro e, por conhecer bem a disposição de todos os móveis e eletrodomésticos, não trombei em nada e não tive dificuldade em atravessar o pequeno corredor que liga esses dois cômodos da casa. Tomei um copo grande de água quase de uma vez, em poucas goladas que me fizeram acentuar a respiração.
O desejo era tanto que, quando dei por mim, passou já mais de vinte minutos que eu estava na mesma posição, com as mãos apoiadas na pia e os olhos mirando um nada. Tomei então a decisão de queimar todos os frames de minha mente acendendo a luz e encarando minha fraqueza no reflexo da porta do microondas. Foi aí que minha imaginação provou ser bem mais forte do que eu podia pensar, pois eu ainda tinha milhões de cenas pra me aguçar, mesmo sabendo que, nessa noite, você não seria minha de forma alguma.
Não voltei pra cama, pro meu quarto. Nessa noite, a esperança é que foi minha parceira e me acompanhou na madrugada sem sono.
* Jader Pires é escritor e editor da Meio Fio e do Papo de Homem.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Não esqueça
Eu quero te ouvir quando me contar seus problemas e dúvidas, quando se entrega por dentro e por fora. Pois o amor é muito estranho, não é mesmo? Mesmo quando danço sozinho imagino se você ainda pensa em mim. Lá fora o mundo segue a girar; o sol nasce a cada dia e a chuva continua caindo, mas algumas coisas mudam. Essa mudança, mesmo lenta, pode nos separar. Se nos encontrássemos um tempo depois será que ainda me reconheceria? Será que chamaria meu nome na rua? A sensação que tenho é que seremos livres e felizes no final disso tudo. E que se fores embora, realmente, desejo que não esqueça de mim.
domingo, 1 de janeiro de 2017
Medos
Foi o medo que o impeliu a sair de dentro de casa. As paredes já não suportavam mais o que havia dentro dele; sentia que o teto pudesse a qualquer momento desabar por sobre toda angústia nele enclausurada. Nas ruas o medo não pareceu amainar. Tantas pessoas que iam e vinham e seguiam suas vidas e não havia ninguém. Com a respiração atingindo seu limite e o suor misturando-se a uma lágrima em sua face, andou o máximo que pode. Apesar de seu medo de altura descobriu-se encostado no parapeito do último andar do prédio mais alto da cidade - como chegara até ali? Tudo se confundia na sua cabeça. Mesmo parado seu coração acelerava e a respiração não diminuía. Com mais medo do que nunca sentira antes não conseguiu ouvir a primeira vez que seu nome foi chamado. Ao se virar pode ouvir seu nome pronunciado nitidamente, mais uma vez. Com a mão estendida percebeu o tremor da mão dela, o batimento descompassado do seu coração, a boca semiaberta e, no fundo do olhar pálido, um brilho prestes a explodir. Soube no momento que, partilhando seus medos, enfrentariam tudo que o desconhecido os pudesse trazer.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
promessa
tive que prometer pois soube que nunca mais ouviria sua voz perto do meu rosto:
- prometa-me que nunca mais tentará me beijar.
não me constrangi pela tentativa; aliás, nunca havia havia feito nada parecido.
deitado no chão da sala sua voz veio em direção ao meu rosto, senti o respirar dela na ponta do meu nariz, quase conseguindo mastigar as palavras que saiam da sua boca.
- não irás me deixar nunca - dizia ela.
mesmo fechando os olhos eu desenhei toda a face dela ao se aproximar da minha. sabia que não deveria me precipitar. estava toda ela ali. mas seu beijo não era o meu. o que ela queria? o que pensava ao roçar seu braço no meu braço?
- apenas fique - ordenava
ora, eu ficaria. eu estaria. eu permaneceria. o calor emanado da boca dela eu senti segundos antes de perder o controle. apenas nossos lábios se tocaram. enrubesci. ela não desviou. apenas estávamos. então, mesmo com sua conivência eu soube: um beijo que não pertencia a mim.
- prometa-me que nunca mais tentará me beijar - esse pedido fez todo sentido e sentido nenhum pra mim.
- prometa-me que nunca mais tentará me beijar.
não me constrangi pela tentativa; aliás, nunca havia havia feito nada parecido.
deitado no chão da sala sua voz veio em direção ao meu rosto, senti o respirar dela na ponta do meu nariz, quase conseguindo mastigar as palavras que saiam da sua boca.
- não irás me deixar nunca - dizia ela.
mesmo fechando os olhos eu desenhei toda a face dela ao se aproximar da minha. sabia que não deveria me precipitar. estava toda ela ali. mas seu beijo não era o meu. o que ela queria? o que pensava ao roçar seu braço no meu braço?
- apenas fique - ordenava
ora, eu ficaria. eu estaria. eu permaneceria. o calor emanado da boca dela eu senti segundos antes de perder o controle. apenas nossos lábios se tocaram. enrubesci. ela não desviou. apenas estávamos. então, mesmo com sua conivência eu soube: um beijo que não pertencia a mim.
- prometa-me que nunca mais tentará me beijar - esse pedido fez todo sentido e sentido nenhum pra mim.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Soneto 23 - Willian Shakespeare
Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,
Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.
Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa
Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,
Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.
Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa
Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
sem palavras
Qual surpresa não foi quando, não mais que de repente, apareceste. Eu que havia visto apenas algumas imagens; umas frases
desconexas e poucas palavras trocadas. Nem tua voz eu tinha. Tanto foi
que de começo houve um diálogo. Eu falava, tu respondias. Não entendia
som algum. Talvez nada deveria ser dito. Estávamos em uma casa estranha
para mim. Mas nossos olhares não eram nenhum pouco estranhos um ao outro.
Havia outras pessoas ao redor, mas nenhuma importava. Pegaste então na
minha mão e levaste-me porta adentro. Encostamos ela e nem as luzes
conseguimos apagar.
Eu te segurei.
Tuas mãos se enredaram pelo meu pescoço e puxaram-me para perto. A boca
sedenta. A língua tímida e ágil. Teu corpo todo eriçado; os bicos
quentes de teus seios roçaram meu peito. Teu cheiro!! Ah, esse entrou
pelas minhas narinas entorpecendo-me. Não havia medo algum. Nenhuma
dúvida. Sabíamos exatamente o que fazer. Minhas mãos enredaram teus
cabelos, roçaram teu rosto. Deslizaram pelas tuas costas e tua coxa. Com
as duas mãos agarrei os lados do teu corpo, enlacei sua cintura e a
levantei.
Deitados então nos
contorcíamos; lentamente suspirando. Tuas pernas prenderam meu corpo no
teu; tuas costas arquejaram; tuas mãos quentes me agarraram pelos
ombros, pelos braços, me puxando pela cintura.
Montaste
então em meu corpo com movimentos frenéticos. Teu cabelo arrastando-se
por toda minha pele. Joga então a cabeça para trás, trêmula e vibrante, e
grita um som que não ouço. Com as unhas cravadas nos meus músculos
continua proferindo palavras que não entendo. Mais alto. Mais baixo.
Suspira. Meu coração dispara. Agarrando-a pelos quadris invertemos o
mundo. Nosso ritmo era música. Como a chuva no telhado; como o vai e vem
das ondas, como o som do trovão de um raio que acende o céu.
E tudo para. Todo meu corpo se arqueia. Teu riso. Última cena que vi antes de acordar.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Tamanha loucura
Eu vi muitos que a cortejavam. E tantos quantos tentaram, tantos foram repelidos por ela. Tudo acontecia em cinco etapas: a admiração que ela causava neles; a paixão arrebatadora que tomava conta dos homens; a desilusão e loucura dos mesmos; a rejeição dela e o fim dramático. Senti apenas o primeiro. Aliás, ainda sinto. A paixão eu sutilmente declarei. Não consegui dar os outros passos. Talvez devesse ser mais ousado. Ela me olha diferente algumas vezes; fala frases que não sei ao certo como interpretar; quando nos encontramos vejo os olhos dela brilharem e, no abraço, sinto o seu coração batendo um pouco mais forte. Não ousaria mais do que isso. Sinto. E sei que é forte e verdadeiro. Entretanto o medo de definhar, como vi tantos outros que vieram e se foram, é muito forte também. Deveria falar! Sim, deveria. No entanto em vez de me arriscar a dizer algo errado, não falarei nada. Sei bem o que acontece com os homens que se agarram demais a ela. Eu nunca tentei possuí-la, não cochichei em seu ouvido nem beijei seu rosto quando desprevenida. Ainda lembro - claro! - do calor do corpo dela quando jogou seus braços no meu abraço; mas lembro também do rosto daqueles que percebiam quando ela os estava deixando. Vou deixar que tudo continue como está. Eu sei - e ela sabe também - que pode voltar quando quiser. Para meus olhos, meus ouvidos, minhas palavras e para os meus braços. Sem perguntas, sem medo, sem discriminação. Haverá, certamente, uma parte que sempre esperará algo mais, essa parte louca, tola e idiota que habita em mim.
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Companhia
Eu subia caminhando, a passos lentos, uma ladeira. Ao chegar no topo divisei um portão; um jardim; uma casinha; uma janela. Apesar da chuva, via através do vidro que tu estavas debruçada sobre um livro qualquer. De parado que eu estava até tomar a decisão de aproximar-me, passaram-se poucos segundos. A água escorria pelo meu corpo enquanto eu pulava a cerca que nos separava -nada disso importava ;
poucos passos adiante e a poucos metros de ti estaquei. A visão que tive nunca mais sairá da minha cabeça. Estavas alheia a qualquer coisa que pudesse estar acontecendo naquele momento - e não queria de forma alguma tirá-la de tal devaneio. Eu contemplava a cena como observasse uma pintura e ali permaneci. Por horas e horas e horas. Pessoas chegavam, pessoas passavam, pessoas falavam, pessoas partiam. Não saberia dizer quem eram nem o que diziam, minha atenção estava voltada apenas para o que fazias. E apenas estavas. Com o mesmo livro na mão, um lápis a dançar em teus dedos e despreocupação em toda tua volta. A noite caiu e a manhã chegou. Com passos vagarosos fui me afastando; a cerca parecia, para mim, muito mais alta agora. No momento que desviei o olhar, uma mensagem recebi. As lágrimas que brotaram ficaram invisíveis em meio as gotas da chuva que insistiam em cair. A mensagem recebida dizia apenas assim:
'Te soube o tempo inteiro. Não ousei te chamar. Obrigado pela companhia neste dia. Um beijo. Volte amanhã'.
poucos passos adiante e a poucos metros de ti estaquei. A visão que tive nunca mais sairá da minha cabeça. Estavas alheia a qualquer coisa que pudesse estar acontecendo naquele momento - e não queria de forma alguma tirá-la de tal devaneio. Eu contemplava a cena como observasse uma pintura e ali permaneci. Por horas e horas e horas. Pessoas chegavam, pessoas passavam, pessoas falavam, pessoas partiam. Não saberia dizer quem eram nem o que diziam, minha atenção estava voltada apenas para o que fazias. E apenas estavas. Com o mesmo livro na mão, um lápis a dançar em teus dedos e despreocupação em toda tua volta. A noite caiu e a manhã chegou. Com passos vagarosos fui me afastando; a cerca parecia, para mim, muito mais alta agora. No momento que desviei o olhar, uma mensagem recebi. As lágrimas que brotaram ficaram invisíveis em meio as gotas da chuva que insistiam em cair. A mensagem recebida dizia apenas assim:
'Te soube o tempo inteiro. Não ousei te chamar. Obrigado pela companhia neste dia. Um beijo. Volte amanhã'.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Diferenças
Sou um leitor inveterado. E por sê-lo agarro-me aos livros e às histórias como se não pudesse mais separar-me deles. Inicio um livro e, invariavelmente, preciso conhecer o final da trama. Toda minha vida foi assim, desde os cinco anos de idade em que juntei as primeiras letras. Até alguns dias atrás.
Tomei certo livro em mãos e iniciei a leitura; entretanto não consegui me empolgar. As frases não faziam sentido na minha cabeça, os fatos descritos não criavam imagens nos meus olhos, os diálogos não consegui formular para minha boca e meus ouvidos. A certo tempo devolvi o livro para estante. Culpado por não me deixar envolver evitei olhar para aquela prateleira. Por dias e dias me angustiei com essa situação.
Eis que uma tarde - dessas de primavera - passei por uma praça e lá estava um rapaz; sentado na grama, os pés descalços, um livro em mãos. O livro que tanto me fez padecer. Detive-me a observar o homem e ele nem notou minha presença. Seus olhos brilhavam a cada palavra lida, a cada página virada. Na hora tive impulsos que desconhecia em mim. Mesmo assim deixei-me ir e rumei pra casa.
Retirando o livro da estante girei-o em minhas mãos. Em vez de martírio senti tranquilidade. Talvez eu não tenha sido feito para o livro, quem sabe o livro não tenha sido feito pra mim ou, simplesmente, não foi o momento certo de passarmos um tempo juntos. Sorrindo, devolvi-o novamente para a companhia de outros livros. Sem culpa alguma fui reler um história que já conhecia, esperando que um dia sejamos feitos um para o outro.
Tomei certo livro em mãos e iniciei a leitura; entretanto não consegui me empolgar. As frases não faziam sentido na minha cabeça, os fatos descritos não criavam imagens nos meus olhos, os diálogos não consegui formular para minha boca e meus ouvidos. A certo tempo devolvi o livro para estante. Culpado por não me deixar envolver evitei olhar para aquela prateleira. Por dias e dias me angustiei com essa situação.
Eis que uma tarde - dessas de primavera - passei por uma praça e lá estava um rapaz; sentado na grama, os pés descalços, um livro em mãos. O livro que tanto me fez padecer. Detive-me a observar o homem e ele nem notou minha presença. Seus olhos brilhavam a cada palavra lida, a cada página virada. Na hora tive impulsos que desconhecia em mim. Mesmo assim deixei-me ir e rumei pra casa.
Retirando o livro da estante girei-o em minhas mãos. Em vez de martírio senti tranquilidade. Talvez eu não tenha sido feito para o livro, quem sabe o livro não tenha sido feito pra mim ou, simplesmente, não foi o momento certo de passarmos um tempo juntos. Sorrindo, devolvi-o novamente para a companhia de outros livros. Sem culpa alguma fui reler um história que já conhecia, esperando que um dia sejamos feitos um para o outro.
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
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