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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Anna Karenina - Tolstói

Já li esse livro três vezes; e a cada vez que deparo-me com o capítulo de abertura do mesmo não resisto e parto a lê-lo.

Compartilharei:

Anna Karenina - Tolstói

Capítulo I

Todas as famílias felizes se parecem, as infelizes não.
Havia grande confusão em casa dos Oblonski. A esposa acabava de saber das relações do marido com a preceptora francesa, e comunicara-lhe que não podiam continuar a viver juntos. Durava já há três dias a situação, para tormento não só do casal mas também dos demais membros da família e da criadagem. Todos em casa se apercebiam de que já não havia razão alguma para manter aquele convívio, e que as pessoas que por acaso se encontrassem numa estalagem teriam talvez mais afinidades entre si. A esposa não saía dos seus aposentos, havia três dias que o marido não parava em casa; as crianças corriam de um lado para o outro, como que perdidas; a preceptora inglesa indispusera se com a governanta e escrevera a uma amiga pedindo que lhe arranjasse outra colocação; na véspera, o cozinheiro abandonara a casa à hora do jantar; o cocheiro e a copeira tinham pedido que lhes fizessem as contas.
No terceiro dia após a altercação, o príncipe Stepane Arkadievitch Oblonski — Stiva, como lhe chamavam os íntimos — acordou à hora do costume, ou seja, às oito da manhã, não no quarto conjugal, mas no escritório, deitado no divã de couro. Revolveu o corpo, gordo e bem tratado, sobre as molas do divã, como se quisesse adormecer de novo, e abraçou se ao travesseiro, apertando o contra a face. De repente, porém, sentou-se e abriu os olhos «Como? Como era?», pensou, lembrando-se do sonho que tivera «Como era aquilo? Ah, já sei! Alabine dava um jantar em Darmstadt, não, não era em Darmstadt; era na América. Sim, no sonho Darmstadt ficava na América. Alabine oferecia um jantar servido em mesas de cristal e as mesas cantavam Mio Tessoro! Talvez não fosse Mio Tessoro, mas qualquer coisa melhor, e havia umas garrafinhas, que afinal eram mulheres.»
Os olhos de Stepane Arkadievitch brilharam alegremente, e, sorrindo, ficou-se a cismar. «Sim, era muito bonito, estava muito bem. E havia muito mais coisas magníficas, mas não podia descrevê-las nem por palavras nem por pensamentos, nem mesmo desperto como estava.» Ao perceber um raio de luz que penetrava por um dos lados da cortina, retirou alegremente os pés do divã, procurando com eles, no chão, as chinelas de couro dourado que a mulher lhe oferecera no ano anterior (presente de aniversário) e, costume seu de há nove anos, sem se levantar estendeu o braço para o roupão, geralmente dependurado à cabeceira da cama. Então lembrou-se subitamente do motivo por que não dormira no quarto conjugal; o sorriso desapareceu-lhe do rosto, e franziu as sobrancelhas.
— Ai, ai, ai! — queixou-se, ao lembrar-se do que sucedera. De novo se lhe representavam na memória todos os pormenores da altercação com a mulher, a posição insolúvel em que se encontrava e as culpas que tinha, e isto era o que mais o atormentava. «Não! Não me perdoará, não pode perdoar-me. E o pior é que sou o causador de tudo, embora não seja culpado. Essa a tragédia», pensava.
— Ai, ai, ai! —repetia, desesperado, ao recordar os momentos mais dolorosos da discussão.
O momento mais desagradável fora aquele em que, ao regressar do teatro, alegre e satisfeito, com uma bonita pêra para a mulher, não a encontrou nem no salão nem no escritório, coisa que o surpreendeu, mas no quarto de dormir, na mão o maldito bilhete que tudo lhe revelara. Dolly, a mulher sempre diligente, cheia de preocupações e tão limitada, segundo pensava Oblonski, sentara-se com o bilhete na mão e olhava-o num misto de cólera, horror e desalento.
— Que é isto? Que é isto? — perguntou-lhe, mostrando o bilhete.
Ao lembrar o ocorrido, o que mais lhe doía, como sempre acontece, não era tanto pelo facto em si, mas o modo como respondera à mulher. Naquele momento sucedeu-lhe o que sucede a qualquer pessoa obrigada a confessar algo vergonhoso. Não soube encontrar expressão adequada à situação. Em vez de ofender-se, negar, justificar-se, pedir perdão ou mesmo
mostrar indiferença — qualquer coisa teria sido melhor—, apareceu-lhe de súbito, na fisionomia, involuntariamente («Reflexos cerebrais» pensou Stepane Arkadievitch, que era dado à fisiologia), o sorriso habitual, bondoso e estúpido. Não podia perdoar-se sorriso tão absurdo. Diante desse sorriso, Dolly estremeceu, como se sentisse uma dor física, e, com o seu arrebatamento peculiar, rompeu numa torrente de palavras duras, acabando por sair, correndo, do quarto em que estava. Desde então não mais quisera ver o marido.
«Aquele estúpido sorriso é que teve a culpa de tudo. Mas que fazer ? Que fazer ?», perguntava-se Stepane Arkadievitch, sem encontrar resposta.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Algo sobre livros

Tchê, terminei de ler essa semana alguns livros: 'O retrato de Dorian Gray', de Oscar Wilde ( já o tinha lido ano passado via e-book, este ano comprei-o e reli; por sorte pude repassá-lo a uma pessoa que com certeza aproveitará muito ele {espero!} e já recebi três pedidos para que o seja emprestado) que é um baita livro, baita história, enredo e linguagem fenomenal; então após terminar esse livro resolvi reler 'O capote', de Gógol, nossa! Que história magnífica, livro rápido de ler (em 3 horas finalizei-o) e reli também 'A metamorfose', de Franz Kafka (esse demorou 6 horas). Cara, esse livro sim! Não saberia nem fazer uma resenha dele pois, são tantas situações que podem ser expressas que, não me atreveria a comentar nenhuma, só posso recomendar essa leitura. Li 'A metamorfose' pela primeira vez aos doze anos e posso dizer que foi uma marco na minha vida, separou-me de histórias cheias de finais felizes e fez-me ver a realidade, também mostrou-me que os ditos 'clássicos' não são chatos ou ruins de ler, são sim complexos, no entanto você realmente viaja quando tem contato com eles.

Colocarei em seguida a abertura desses dois últimos livros (pois sempre penso que um bom livro não necessita ter um bom final, ele precisa ter um grande início) pois esses, como Nabokov e vários outros, souberam entar em cena grandiosamente.

O Capote - Gogól

"Na Repartição de... Mas será melhor não a nomearmos, porque nada há mais susceptível do que os nossos empregados públicos, desde os amanuenses aos chefes de repartição. Actualmente, cada um sente-se em particular como se na sua pessoa toda a sociedade tivesse sido ofendida. Diz-se que um capitão da polícia apresentou, ainda não há muito tempo, uma queixa - não me recordo em que cidade isto se passou - revelando claramente que os decretos imperiais eram desdenhados por toda a gente e que o santo nome de um oficial era proferido com desprezo. E juntava, como prova, o volumoso tomo de certa novela em que, de dez em dez páginas, aparecia um capitão da polícia, e, o que é demais, em completo estado de embriaguez. Deste modo, para evitar desgostos, em vez de indicar a repartição onde ocorreu o facto, é preferível dizer apenas: "Numa repartição..."
Por conseguinte, "numa repartição" servia "um funcionário". Esse funcionário, é justo dizê-lo, era muito distinto: de estatura baixa, um pouco picado das bexigas e igualmente um pouco curto de vista, com uma pequena calva a principiar na testa, rugas nas duas faces e, no rosto, essa cor característica do hemorroidal ... Que se lhe há-de fazer: A culpa era do clima de Sampetersburgo. Pelo que se refere à sua categoria (pois é entre nós a primeira coisa que se menciona), era o que se designa por "conselheiro titular perpétuo", um daqueles com que satirizam certos escritores que têm o benemérito hábito de cair a fundo sobre os inofensivos."

A metamorfose - Kafka

"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos."

terça-feira, 20 de março de 2012

Lolita - Nabokov

CARA! Que começo de livro.. curte isso; assim que se escreve de verdade:

Chapter One
"Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita. Did she have a precursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, one summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh when? About as many years before Lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style. Ladies and gentlemen of the jury, exhibit number one is what the seraphs, the misinformed, simple, noble-wingeds seraphs, envied. Look at this tangle of thorns."

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Romeu e Julieta - Trecho

William Shakespeare: Romeu e Julieta
Cena do Balcão (Ato 2, Cena 2)

JULIETA:
Oh Romeu, Romeu!
Por que és Romeu? Renega teu pai e recusa teu nome;
Ou, se não quiseres, jura-me somente que me amas,
E não mais serei uma Capuleto.

ROMEU [à parte]:
Continuarei a ouvi-la ou devo falar-lhe agora?

JULIETA:
Somente teu nome é meu inimigo.
Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montecchio.
Que é um Montecchio?
Não é mão, nem pé,
Nem braço, nem rosto.
Oh! Sê qualquer outro nome
Pertencente a um homem.
Que há em um nome?
O que chamamos rosa,
Com qualquer outro nome exalaria o mesmo perfume.
Assim, Romeu, se Romeu não se chamasse,
Conservaria essa cara perfeição que possui
Sem o rótulo.
Romeu, despoja-te de teu nome;
E pelo teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!

ROMEU:
Tomo-te a palavra.
Chama-me somente Amor
E serei de novo batizado.
Daqui em diante jamais serei Romeu.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Clube da Luta - Chuck Palahniuck

Segue o primeiro capítulo do livro o Clube da Luta, de Chuck Palahniuck; livro que deu origem ao cultuado filme de mesmo nome. Vale a pena assitir, mas vale muito mais a pena ler.. (eu consegui fazer download do livro em alguns sites da internet, para venda está meio ruim de consegui-lo, no Brasil só saiu apenas uma edição, quem tem não vende, quem vende quer muito; eu consegui comprá-lo num sebo virtual (http://www.estantevirtual.com.br/) e posso afirmar que vale cada centavo..
Ó:

1

Primeiro Tyler me arruma um emprego de garçom, depois enfia um revólver na minha boca e diz que o primeiro passo para a vida eterna é morrer. Por muito tempo Tyler e eu fomos grandes amigos.

As pessoas estão sempre me perguntando se conheço Tyler Durden.

Com o cano da arma quase encostado no fundo da minha garganta, ele afirma:


— Ninguém quer morrer de verdade.

Sinto na língua os buracos silenciadores que furamos no cano do revólver. Grande parte do ruído da detonação é produzido pela expansão dos gases, tem aquele silvo supersônico que a bala faz quando disparada. Para fazer um silenciador, basta furar buracos no cano da arma, vários deles. Isso permite que o gás escape e a bala saia abaixo da velocidade do som.
Se furar errado, o revólver explode na sua mão.

— Não é realmente uma morte. A gente vira lenda. Não vai envelhecer — continua ele.

Empurro com a língua o cano da arma para a bochecha e digo, Tyler, você está falando de vampiros.

Estamos no alto de um prédio que em dez minutos deixará de existir. Pegue vapor de ácido nítrico com 98% de concentração e adicione o ácido a três vezes a mesma quantidade de ácido sulfúrico. Faça isso num banho de gelo. Depois, com um conta-gotas, pingue glicerina lentamente. E você obterá nitroglicerina.

Sei disso porque Tyler sabe disso.

A nitro misturada a pó de serra também dá um bom explosivo plástico. É só misturar a nitro com algodão e adicionar sal amargo como sulfato. Também funciona. Outros preferem misturar parafina. Para mim, parafina nunca funcionou.

Tyler e eu estamos no alto do Parker-Morris Building com a arma enfiada na minha boca e ouvindo os vidros se estilhaçando. Estamos na beira do telhado.

É um dia nublado, mesmo na altura em que estamos. É o prédio mais alto do mundo, aqui em cima é sempre frio. E muito silencioso; você se sente como um desses macacos do espaço que só fazem aquilo que são treinados para fazer. Puxe a alavanca. Aperte o botão.

Você não entende nada e, depois, simplesmente morre.

Acima do centésimo nonagésimo primeiro andar, na beira do telhado, a rua matiza-se de um tapete rústico, com as pessoas paradas, olhando para cima. O vidro que se quebrou foi de uma janela logo abaixo de nós. Outra vidraça explode na parede lateral do prédio, de onde sai um fichário grande como uma geladeira preta, logo abaixo um arquivo cora seis gavetas despenca pelo paredão e cai em lentas cambalhotas, e cai, cada vez menor, e cai, desaparecendo entre a massa de pessoas.

Num desses 191 andares sob os nossos pés, os macacos espaciais do Comitê de Maldades do Projeto de Ações Violentas estão feito loucos, tentando destruir cada resto de história.

Sabe aquele velho ditado que diz que a gente destrói quem mais ama? Bom, o inverso também é verdadeiro.

Com a arma enfiada na sua boca e o cano entre os dentes, só dá para falar as vogais.

Estamos nos nossos dez minutos finais.

Outra janela estoura no prédio, o vidro espirra para todo lado como uma revoada de pombos, e uma escrivaninha, empurrada pelo Comitê de Maldades, vem surgindo na parede lateral, balança, escorrega e vira um objeto mágico voador que se perde na multidão.

Em nove minutos o Parker-Morris Building não existirá mais. Pegue uma boa quantidade de gelatina explosiva e amarre nas colunas estruturais de qualquer coisa; dá para derrubar qualquer prédio do mundo. É só escorar bem com sacos de areia na base para que a explosão se dê contra a coluna e não se espalhe pela garagem.

Não se ensina nos livros como fazer isso.

Há três maneiras de fazer napalm: primeiro, misturando partes iguais de gasolina e suco de laranja concentrado e congelado. Segundo, misturando partes iguais de gasolina e coca diet. Terceiro, dissolvendo alimento granulado para gatos em gasolina, até formar uma pasta.

Quer saber como se faz o gás que afeta o sistema nervoso? Ah, e aqueles carros bombas fantásticos!

Nove minutos.

O Parker-Morris Building voará pelos ares, todos os 191 andares, e tombará lentamente como uma árvore na floresta. É possível derrubar qualquer coisa. É estranho pensar que o lugar em que você está será apenas um ponto no céu.

Tyler e eu na beira do telhado, o revólver na minha boca, fico pensando se esse revólver está limpo. Ninguém mais se lembra das histórias de assassinato e suicídio de Tyler enquanto vemos outro arquivo despencar pela parede lateral do prédio, as gavetas se abrirem, uma pilha de papéis ser apanhada por uma corrente ascendente e se espalhar com o vento. Oito minutos.

Depois a fumaça, a fumaça saindo das vidraças quebradas. A equipe de demolição chegará à carga principal em, talvez, oito minutos. A carga principal explodirá a carga da base, as colunas estruturais vão desmoronar e as fotos do Parker-Morris Building entrarão para os livros de história.

Uma seqüência de cinco fotos. Na primeira, o prédio ainda em pé. Na segunda, num ângulo de oitenta graus. Depois, 75 graus. Na quarta foto o prédio está num ângulo de 45 graus, a estrutura começa a ceder e a torre a se curvar levemente. Na última foto, a torre, todos os 191 andares, despencam ruidosamente sobre o museu nacional, que é o verdadeiro alvo de Tyler.

— O mundo é nosso, o nosso mundo, e toda essa velharia vai morrer — diz Tyler.

Se eu soubesse aonde tudo iria dar, ficaria mais feliz se morresse e fosse logo para o céu.

Sete minutos.

No alto do Parker-Morris Building com a arma de Tyler dentro da minha boca. Enquanto mesas, arquivos e computadores despencam como meteoros sobre a multidão ao redor do prédio, enquanto saem espirais de fumaça pelos vidros quebrados e a três quarteirões daqui a equipe de demolição olha o relógio, eu sei de tudo: a arma, a anarquia, a explosão, tudo isso tem que ver com Marla Singer.

Seis minutos.

Existe uma espécie de triângulo entre nós. Eu quero Tyler. Tyler quer Marla. Marla quer a mim. Eu não quero Marla, e Tyler não me quer ver por perto, nunca mais. Isso não tem nada que ver com amor, como na proteção. Tem que ver com propriedade, como no domínio.

Sem Marla, Tyler não teria nada.

Cinco minutos.

Talvez a gente se torne uma lenda, talvez não. Eu acho que não, mas espere. Onde estaria Jesus se ninguém tivesse escrito os evangelhos?

Quatro minutos.

Empurro o cano do revólver para a bochecha e digo, se você quer ser uma lenda, Tyler, deixe comigo. Estou aqui desde o começo. Eu me lembro de tudo.

Três minutos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Dom Casmurro - Machado de Assis (trecho)

"Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no último ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na Lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos
unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia, alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga."

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Trecho

"Que sensação se comunica a todo o meu ser quando por acaso meu dedo toca no seu, ou nossos pés se encontram embaixo da mesa! Retiro-os como se tivesse tocado o fogo, e uma força secreta impulsiona-me de novo. A vertigem arrebata os meus sentidos! ... E dizer que sua alma cândida não sabe o suplício que me infligem essas pequenas familiaridades! E quando, animados pela conversa, ela pousa sua mão sobre a minha e, mais arrebatados ainda pelas palavras, ela se aproxima tanto que eu chego a experimentar seu hálito celestial junto dos meus lábios. . . então, parece que vou desaparecer como que ferido pelo raio... E, Wahlheim, como explicar esta pureza e esta confiança, se eu jamais ousei... você me compreende. Não, meu coração não é tão corrompido! Ele é fraco, sim, bem fraco! Ela me é sagrada. Todo desejo emudece em sua presença. Não sei o que sinto quando estou junto dela; é como se toda a minha alma estivesse subvertida... Uma ária que ela toca no cravo, com o poder mágico de anjo, e com tanta simplicidade, tanta alma! É a sua ária predileta. Quando ela fere a primeira nota, sinto de todo o meu sofrimento, da confusão das idéias e fantasias. Nada do que os antigos contam sobre o poder sobrenatural da música me parece inverossímil. Como esse pequeno canto toma conta de mim. E como ela sabe fazer-se ouvir a propósito, sempre no momento em que me vem vontade de meter uma bala na cabeça! ... O delírio e as trevas se dissipam na minha alma e respiro mais livremente."

O sofrimento do jovem Werther; Goethe.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Livros, livros russos, livros alemães, livros brasileiros, livros livros livros

Estou tentando, há diversos dias, escrever algo (uma resenha, um comentário, qualquer palavra) sobre o livro Anna Karenina, do Tolstói. Juro que não consigo. Não há palavras minhas que consigam expressar o jeito que o autor nos envolve nessa trama. Há tempos que venho fissurado na literatura russa. Iniciei com Dostoiévski, no seu clássico 'Crime e Castigo', depois não houve mais volta. A riqueza de detalhes, a descrição do momento russo da época, a forma como nos é tomada a atenção só poderiam ter partido de gênios como esses. O único porém que percebo, é que, da mesma forma que quando assistimos a um filme estrangeiro dublado, perdemos sempre algo na interpretação do tradutor (no caso dos filmes legendados há uma perda menor se nossa mente consegue interpretar o que se ouve e o que se lê); lógico que não serei hipócrita ao ponto de desmerecer o trabalho dos tradutores e nem de achar que conseguiria ler russo ou alemão ou mesmo tirar todo o proveito do inglês; o que me aflige é saber que mesmo traduzidos, esses livros são ótimos, que se dirá fossem lidos no original. Diversas vezes tentei indicar essa literatura a alguns, no entanto sem muito sucesso, há um preconceito contra livros 'grossos demais' ou então que 'não estão na lista da Veja' ou pior, que 'não tem nenhum vampiro"; só sei que os livros desses gênios ficarão na história, enquanto que alguns só passarão. Recomendo para quem quiser iniciar na leitura desses carinhas, o livro do Gógol, 'O Capote', 'fininho e dinâmico'; também recomendo um livro, que li pela primeira vez quando tinha 12 anos, que o li novamente por mais duas vezes, de um escritor da Checoslováquia, Franz Kafka (sim, checo; não alemão), que é 'A metamorfose', nossa, esse é o cara! 'O processo' (deste último) também é um clássico que deve ser lido e relido.

E por hoje, chega!

Vou citar abaixo alguns livros que recomendo (apenas os que li, lógico), não só de russos, ou alemães ou checos, mas de livros que foram feitos para ser lidos e para serem atuais, não importando a era que vivenciamos.
(sei que não fiz comentário nenhum sobre o livro, no mínimo isso é uma crítica, no máximo um desabafo).

Dostoiévski:
'Crime e Castigo' (esse é sem comentários)
'Os Irmãos Karamazov' (este é foda)
'O Idiota'
'O Jogador'

Tolstói'Anna Karenina' (vale cada releitura)
'Guerra e Paz'

Kafka'A metamorfose'
'O Processo' (sobre este, falado aqui http://1berto-2berto.blogspot.com.br/2010/04/o-processo-franz-kafka.html  )

Goethe'O sofrimento do Jovem Werther' (sobre este, já falado aqui http://1berto-2berto.blogspot.com.br/2010/04/o-sofrimento-do-jovem-werther-goethe.html)
'Fausto'

Gógol'O Capote'

Oscar Wilde
'O retrato de Dorian Gray'

Shakespeare (obrigado a minha colega de aula C., que me apresentaste este e ao qual nunca mais deixarei de ler)
'Sonho de uma noite de verão'
'Rei Lear'

Citarei alguns autores e obras do Brasil, que eu curto:

Machado de Assis - Qualquer (e é qualquer mesmo!!) obra dele (Ressureição, A mão e a luva, Memórias póstumas..., Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires... e vai....)
Aluísio Azevedo - O cortiço (meeeeeeeeeee, esse livro é sinistro, um dos melhores que já li até hoje)

Logicamente esquecerei vários, entretanto me dão margem para novas postagens de mea culpa.

Para finalizar, dois de nossa época, que me fizeram a cabeça:
'O clube da luta', de Chuck Palahniuck (livro que deu base ao filme); e
'O Evangelho Segundo Jesus Cristo', do nobel Jose Saramago

E agora fui-me de verdade, esse post me pilhou demais...
Ficaria horas divagando sobre as coisas que li, as que reli e as que ainda lerei...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Miln Kundera - A insustentável leveza do ser

"A primeira traição é irreparável, ela provoca, numa reação em cadeia, outras traições das quais cada uma nos distancia cada vez mais do motivo da traição inicial."

Eça de Queirós - Primo Basílio

"(...) tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, E parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

- Capítulo IV

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Maiakóvski

Vladimir Maiakóvski é o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas em torno da Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam.
Maiakóvski deixa descortinar em sua poesia um roteiro coerente, dos primeiros poemas, nitidamente de pesquisa, aos últimos, de largo hausto, mas sempre marcados pela invenção. "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária", era o seu lema, e nesse sentido Maiakóvski é um dos raros poetas que conseguiram realizar poesia participante sem abdicar do espírito criativo.

Alguns dos seus poemas:

Despertar é preciso

"Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada."

"...nenhum som me importa afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho."

"O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração."

"Amar não é aceitar tudo.
Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que haja falta de amor."

"Remoça-te em minh'alma! Entrega a meu coração a festa do teu corpo!

Sei.
Todos pagam pela mulher.
Não importa se, por ora, em vez do luxo de um vestido parisiense visto-te apenas com a fumaça de meu cigarro."

A flauta vértebra

"A todos vocês,que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!

Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na História. Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras."

Dedução

"Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente."

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ana Karenina - Leon Tolstoi

Himmlisch ist's, wenn ich bezwungen
Meine irdische Begier;
Aber dochwenn's nicht gelungen,
Hatt' ich auch recht hübsch Plaisir!

*Digno do céu se sentia
quando os meus terrenos apetites dominava.
Mas quando não o conseguia,
um inefável prazer de mim se apoderava